Só o arrais continua agarrado ao leme, de olhos fixos na agulha de marear. Chego-me mais para ele... Água negra, respiração negra. (...) Escuto o negrume cheio de rumores, de vozes, de sombras movediças.
Um grito parece vir de muito longe, da vida monstruosa e profunda em que me entranho. Mas já me não mete medo o mar.
In "Os Pescadores" de Raul Brandão
Dizem os crentes que foi milagre. Eu também acredito em milagres. Nos milagres de todos os dias. No milagre de andar às cegas, quando nos cortam as luzes. No milagre de pôr pão na boca dos filhos, quando nos tapam a revolta na boca e nos entregam ao deus-dará. No milagre de ter filhos, quando nos empurram o futuro para não sei quando. No milagre de catar a noite, para aquecer os sem-abrigo. No milagre de criar, quando nos dão pontapés no estômago.
Eu acredito no milagre de Caxinas, essa praia de verões íntimos e gente maior que nós. Acredito no mestre, acredito em todos os tripulantes, acredito nos homens do mar, acredito na força das mulheres, dos filhos e dos amigos que os prendem à terra. Acredito nos homens do ar que os içaram.
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| Foto - Força Aérea Portuguesa |
Tudo o resto foi contra ou indiferente. A fúria do mar. A avidez do frio. A indiferença dos deuses.

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