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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Estou pior da miopia

Todas as manhãs, pelas oito e meia, a vejo no café. Andará nos cinquenta. Cabelo curto, acinzentado.
Toma um café. Abre um livro. Não, um jornal, não, nem uma revista cor-de-rosa, como seria de esperar. 
Talvez lhe incomode a atualidade. Talvez goste dos meandros da ficção. Talvez lhe pese o ruído da solidão. Talvez o marido tenha saído para comprar cigarros e tenha emigrado. 
Hoje, como sempre, abre um livro. Lê. Sublinha. Comenta. Eu espreito e não leio nada. Estou cada vez pior da miopia. E como não tenho o jornal da casa, porque outro cliente já marca a vez de véspera e agarra-o antes de mim, entretenho-me a cogitar. De certeza que ela há-de estar a um texto light. Deito veneno na cultura dela. Ela levanta-se. Fecha um Saramago. Diz até amanhã. E comenta para a menina do café:
- Vou fazer limpeza à D. Clotilde. Já há-de ter saído. 

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