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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A estantezinha



deixa-me escolher melhor o sítio em que te veja. 
Aqui, à volta do meu pai, a acomodar-lhe o lugar na mesa, a enredá-lo na teia da tua entrega, ou aqui a amassares os matrafões da Páscoa, ou aqui a limpares as lágrimas pelas dores da nossa menina, elas foram sempre as meninas, nunca te ouvi chamar-me menina, era sempre a filha, como se eu tivesse crescido mais depressa, ou aqui a leres um aerograma de Angola, outra vez o avental a servir-te de consolo, ou aqui, no banquinho de cada Consoada, a perguntar se estava tudo o que o Natal pedia, estava tudo, mãe, só o pai nunca mais veio, estava tudo, mãe, menos os dias gloriosos da tua força. 
Mas este sítio, mãe, onde te escolho, é aquele onde estás sempre. À janela dos meus dias. A ver-nos, a acenar-nos, como se nunca acabasse a despedida, que era a maneira de nos teres de volta a essa casa, onde nós continuamos a morar.

Estás quase a fazer anos. Se eu pudesse dava-te de volta o presente de que mais gostei. Talvez faça anos que tu mo compraste, para que o Menino Jesus pudesse enfeitar-me o sapatinho. Aquela estante menina, com seis livros tão meninos como ela. Procurei-a, mãe. Encontrei-a na memória. Talvez tu a vejas. Se assim for, guarda-a. E volta a pô-la no meu sapatinho. Daqui a vinte e quatro dias dias, Mãe.

2 comentários:

Anônimo disse...

Não tenho palavras...
Adorei

odete ferreira disse...

Esta é uma das memórias que me ficaram, como fica uma pedra no sapato,após uma caminhada longa e tortuosa.
Sem esta estantezinha, talvez a minha vida tivesse sido escrita de outra maneira.
Obrigada.