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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Tortura

The Scream by Edvard Munch - Color Schemes from Great Paintings
O Grito - Edvard Munch
A vila horrorizou-se. Quase se cobriu de luto. Aquele não era mortal. Era um pecado mortífero. Os adultos usavam a boca fechada para o mencionar. As crianças espreitavam as maldições de tão terrível segredo. O padre fechou a porta da absolvição. A professora primária selou em túmulo o acontecimento.
A vila voltou-se para dentro, numa expiação de culpa coletiva.
Nove meses depois, nascia uma menina. A vila batizou-a. Filha de pai-avô. O velho carregou para sempre a cruz incestuosa.
As crianças levaram algum tempo a descobrir. Entender, nunca. Ainda hoje, cubro de nevoeiro essa memória.
Hoje, já não há vila que se espante. O pecado  é venial. Há uns restos de letra escarlate na sombra do arguido.Todos os dias, se rasga o mandamento: Abomine-se aquele que abusar ou trocar por dinheiro a inocência dos meninos.
Após o julgamento, a mãe do menino desaparecido declarou publicamente que a sua vida é uma tortura. Não precisava. Basta olhá-la.

2 comentários:

Anônimo disse...

Um pesadelo demasiado grave para assobiarmos para o lado!
Margarida

odete ferreira disse...

Um pesadelo de que as vítimas nunca acordam. Obrigada.