Tanto peso, Madre!
Janeiro, um desses embrulhados domingo de inverno, sessentas. Como no filme “Doubt” de John Patrick Shanley.
A menina olha ainda o nome da estação. Como se quisesse ler outro. Era mesmo aquele o seu destino. Terá doze anos? Pendura-se nos degraus do comboio e arrasta a mala. Espera. Esvazia-se a estação. Segue por uma alameda de choupos. Lá ao fundo, um edifício amarelado, rodeado de muro trepado a heras. Empurra o portão. Sobe a escadaria. Outro portão. Toca a campainha. Uma freira, toucada a preto e branco, abre-lhe a porta. Está agora a separar-se da mala, arrumada pela mãe. Sobe outras escadas. Entra no dormitório. Uma vastidão de camas brancas, que à noite se hão-de encher de raparigas tristes. Janelões olham para dentro. Veste a bata preta, degolada a branco. Ainda tem tempo para secar as últimas lágrimas da rua. No corredor, a arrastar o hábito, a Madre Superiora. A rapariga beija-lhe a mão fria. A Madre avança com o peso da educação de centenas de futuras mulheres. A rapariga está pronta para o trimestre.
Mal me revejo nela!

6 comentários:
A tristeza fazia parte dominante da educação dessas meninas. A alegria era quase um pecado!
Margarida
A alegria, a liberdade,o corpo, a culpa, eram altamente questionáveis.
Obrigada pela visita
tudo isso e mais um texto sublime.
"...veste a bata preta, degolada a branco...". Inquietante. belo.
(Aproveito para saudar o novo visual do Amirgã. Muito bom.)
Um duplo obrigada, João. Sabes, há memórias que persistem em nos assombrar!
Também eu cara escritora, sofri os horrores dos internatos dos anos sessenta.
O seu texto relata, duma forma notável, a frieza e a terrível angústia que os carateriza.
"A rapariga beija-lhe a mão fria."
"Ainda tem tempo para secar as últimas lágrimas da rua."
Que melhor?
Parabéns
Obrigada por partilhar a sua experiência. Penso que esse é um tema a desvendar. Ainda está muito embrulhado em névoa.
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