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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Tanto peso, Madre!

Tanto peso, Madre!
Janeiro, um desses embrulhados domingo de inverno, sessentas. Como no filme “Doubt” de John Patrick Shanley.
A menina olha ainda o nome da estação. Como se quisesse ler outro. Era mesmo aquele o seu destino. Terá doze anos? Pendura-se nos degraus do comboio e arrasta a mala. Espera. Esvazia-se a estação. Segue por uma alameda de choupos. Lá ao fundo, um edifício amarelado, rodeado de muro trepado a heras. Empurra o portão. Sobe a escadaria. Outro portão. Toca a campainha. Uma freira, toucada a preto e branco, abre-lhe a porta. Está agora a separar-se da mala, arrumada pela mãe. Sobe outras escadas. Entra no dormitório. Uma vastidão de camas brancas, que à noite se hão-de encher de raparigas tristes. Janelões olham para dentro. Veste a bata preta, degolada a branco. Ainda tem tempo para secar as últimas lágrimas da rua. No corredor, a arrastar o hábito, a Madre Superiora. A rapariga beija-lhe a mão fria. A Madre avança com o peso da educação de centenas de futuras mulheres. A rapariga está pronta para o trimestre.
Mal me revejo nela!
Na Páscoa, o sol volta a aquecer.

6 comentários:

Anônimo disse...

A tristeza fazia parte dominante da educação dessas meninas. A alegria era quase um pecado!
Margarida

odete ferreira disse...

A alegria, a liberdade,o corpo, a culpa, eram altamente questionáveis.
Obrigada pela visita

joao de miranda m. disse...

tudo isso e mais um texto sublime.
"...veste a bata preta, degolada a branco...". Inquietante. belo.

(Aproveito para saudar o novo visual do Amirgã. Muito bom.)

odete ferreira disse...

Um duplo obrigada, João. Sabes, há memórias que persistem em nos assombrar!

Anônimo disse...

Também eu cara escritora, sofri os horrores dos internatos dos anos sessenta.
O seu texto relata, duma forma notável, a frieza e a terrível angústia que os carateriza.
"A rapariga beija-lhe a mão fria."
"Ainda tem tempo para secar as últimas lágrimas da rua."
Que melhor?
Parabéns

odete ferreira disse...

Obrigada por partilhar a sua experiência. Penso que esse é um tema a desvendar. Ainda está muito embrulhado em névoa.