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terça-feira, 29 de novembro de 2011

POR TRÁS DO ARBUSTO AMARELO

 

Aqui, no computador, não és diferente, deficiente, atrasado, maluquinho ou debilóide, como ouviste há dias de uma senhora, de joelhos engelhados, ombros cobertos por uma alça de colete, lábios vermelhos, recortados, de certeza mais velha que a tua mãe, a carregar o cenho, a gritar o ói com uma boca de forno escancarada, a olhar-te como se fosses a última tolice de Deus Pai e a ajustar com uma unha vermelha um qualquer parafuso que lhe sobrasse na testa.

Aqui, neste monitor, as letras são tuas, os ás, os bês, os cês, não são diferentes, não gaguejam, como às vezes as tuas palavras, quando estás com nervoso miudinho, e por isso têm a mania de acabar as ideias que começas e depois só tens tempo de dizer sim-sim, não-não, pois-pois, e de te rires muito, quando eles adivinham o que tu querias dizer. Eles, às vezes, julgam que não os entendes, eles é que não sabem por onde é que tu andas, quando põem a cassette que não gostas, aquela do juízo, e mais outras músicas, então deixas a doutora psicóloga a mexer os lábios, numa ladainha a que perdes o fio e ... é pessoal, é esgalhar por aí fora, numa naice duma mota, acelera, as coxas da Lara a apertarem-te de susto e tu a fazeres um cavalinho e os fedúncios dos carros a buzinarem e o "percebeste?" da doutora psicóloga a fazer-te assentar as rodas.

Outras vezes, fazes que desligas, quando o Paulo ou o David, teus vizinhos, te começam a chingar " olhó cerci, olhó cerci" e tu, Zé Carlos da Silva, te pões a olhar para o lado a fingir que a boca não é contigo, o pior é que só tu é que andas por ali, mas também não são só eles, já na escola, ninguém era teu amigo, houve até quem te negasse a chave dos sanitários, que aquelas casas de banho não eram para atrasadinhos, mas então eles, que são tão avançadinhos, não vêem que a culpa não é tua, de não encaixares os teus números na matemática dos livros, de te tremerem as letras, de tu seres maior do que eles, de gostares dos assobios doidos do vento, do rio a abocanhar as beiras, dos vagalhões pedrados da Vagueira, do cheiro de sexo da terra, das negaças do céu, ora a amalucar-se de riso, o calmeirão, ora a atroar os tambores da fanfarra e a ziguezaguear os leiséres, ora a acagaçar-se numa de chuvadas?

Então tu não tens o direito de sonhar com uma mota , toda cheia de cromados, capacete de piloto e selim de dois lugares e um spid maior que o foguetão da Nasa, que deu na televisão?

Às vezes, uma tristeza sem choro cobria-te os cadernos, os livros, a cabeça e o riso, como quando o teu pai escavacava a louça toda no corpo da tua mãe, que te fechava no quarto, antes que a tua cabeça virasse bombo da festa. Tua mãe gosta de ti, bem sabes, fracos gostos, tu não tens nada bonito, os olhos como bogalhos, o nariz de pêra rocha, boca de rego lavrado e, bem, há uma coisa que tu tens melhor que muitos, são os pés, ligeiros como a areia das nortadas. É por isso que tu jogas no Sport da Bairrada, foi o padre Mário que te meteu lá, ele é assim a modos que levezinho da cabeça, dá de comer aos drogados, tem um grupo musical com os putos das cerâmicas, enfim cada um tem a sua panca, mas que és jogador de cinco estrelas, disso ninguém tenha dúvida, tu devias ser só pés, a correr, a passar, a chutar, e gooolo e a malta de Assequins a chamar-te Eusébio, aí sim gostas de ti.

E mais que de ti, gostas da Lara. Ficaste logo assim, cabeça num remoinho, quando ela chegou à Cerci. Olhos grandes que nem nozes, lábios grossos como gomos de laranja, o cabelo preto e farto e os redondos do corpo a pedirem-te meiguices. Ela passa o dia aqui, na sala ao lado da tua, a coser muitos lençóis, cortinados, folhos bordados e rendas, ela até diz, que os pontos todos que ela dá valem mais que as tuas letras, até mais do que os teus golos! As mulheres são assim todas? Sacodem a cabeleira, ora arreganham os olhos, que nem balizas abertas, ora os cerram, todas mel, e fintam um jogador prevenido que nem tu! Mas tu, Zé Carlos da Silva, tu queres lá saber das fintas, tu caíste como um tordo, quando, à tarde, no intervalo do lanche, ela se escondeu, trás do arbusto, o das flores amarelas, te chamou, te pespegou, nas barbas da ramaria, um beijo apaixonadão, assim sem treino nenhum.

E ficaste com ideias mais corridas que as de um rio e mandaste-lhe poemas mais longos que a saudade dos Domingos sem a veres e mais doces do que as letras que ela borda. E fizeste um cartaz, com um arbusto amarelo e duas mãos amarradas e dois beijos como num filme sem fim. E chamaste-lhe só Lara, que Zé Carlos não é nome de amor desenhado num cartaz. E dedicaste-lhe o prémio, que te chegou de Lisboa. Sem Lara, não há mãos nem há beijos nem nenhuma flor esconde o que ninguém tem precisão de saber. Só ela. Só tu.

E ela aconchegou-se, que nem bichinho de conta, quando à tarde, pouco antes da saída, numa cova de folhedo, lhe disseste que o corpo dela era teu e ela não disse não e lhe esfregaste os cabelos com o cheiro de eucalipto.

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