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sábado, 26 de novembro de 2011

O campeão do pião

 

imagens/robson/20piao.
O menino escondia as lágrimas debaixo da cama. Ali no segredo, homem não chora, homem não chora, mas as lágrimas nunca ouviam o que a avó ensinava e corriam cara abaixo, sem ninguém as castigar.
Ele bem ouvia:
- Carlitos! Carlitos! Vem dizer adeus aos tios e às primas.
Mas dizer adeus é pior que lhe roubarem o pião. Um pião relamposo, cheio de voltinhas às cores, presente do avô, que ele fazia rodopiar e saltar, como se lhe desse corda, a ponta de ferro a fincar-se no chão ou na mão, ele e pião deitados prá direita, prá esquerda, empinados ao meio, o pião que nem cavalo, domado com a mão e o cordel do dono. Depois das primas, o seu maior amigo era o pião. A avó chamava-lhe o meu campeão do pião.
Ele bem os ouvia a desfazerem o presépio, a deixarem cair o espelho que fazia de laguinho, a embrulharem reis e pastores, o menino Jesus e os pais, até o burro e a vaquinha em papel do Jornal de Notícias, onde o avô escrevia, a arrumarem os presentes de Natal, a descerem as escadas, a arrastarem sacos e malas no pátio, a levarem com eles a festa e a avó a chamá-lo.
- Carlitos! Carlitos! Vem dizer adeus aos tios e às primas.
Primas? Não! No Verão, na Páscoa, no Natal, ele não tinha primas. Tinha irmãs e ter irmãs, isso sim, é coisa de homem, Levava-as à ponte do Carril, ao freixo, à torre, ensinava-lhes como se tira um grilo da toca, deitava o pião para elas, fazia de pai nos teatros delas, só não se vestiu de Entrudo como a Ana queria, porque isso era coisa de rapariga.
E depois de ter irmãs durante aquele tempo, queriam que se despedisse delas e voltasse a ter primas. Despedir-se era isso, era acabar o faz de conta, era não ter mais irmãs até à Páscoa. Assim, faz de conta que ele tinha ido ao campeonato de pião e as irmãs continuavam por ali, não iam para as terras delas, onde não tinham um campeão do pião que lhes dava grilinhos cantadores.
Não sabia se aquela tristeza era ou não era de homem. Só sabia que tinha de a esconder no escuro, porque não era coisa que se desse a ninguém. Era só dele.

2 comentários:

Anônimo disse...

Ternurento,emotivo,perfeito.
Este texto,conduz-nos à infância de um menino de província.
A partida dos familiares longinquos,é demasiado penosa para ele.
Será,que não aparece um amigo que o leve até ao adro?...

odete ferreira disse...

A tristeza de uma criança é efémera. O desgosto da partida esvai-se logo que outro motivo capta a sua atenção. Era o caso deste campeão.
Obrigada.