Como outras grandes figuras freixenistas, Guerra Junqueiro é um nome de muitas terras, um peregrino de muitos sítios, mas Freixo é a sua pedra basilar. Aqui, na rua das Flores, viveu Junqueiro os anos do paraíso perdido. Na pia baptismal de Freixo, escorreu-lhe a água benta e berrou de susto. No colo e na rua, aprendeu palavras doces e palavras agres. Calcorreou meia vila. Tropeçou na calçada da rua Nova e do Adrinho. Espreitou os palheiros do Carril e os títeres na largueza da Praça. Encolheu-se de medo na rua da Cadeia. Passeou, de mão dada com a avó, no largo do Outeiro e na rua das Eiras. Foi ao Cabecinho ver Nossa Senhora e viu a procissão na varanda do Vale. Brincou com os meninos e os raparigos do seu tempo, saltou ao chincomé, deu voltas carneiras, quem sabe se não foi de anjinho na festa do Verão, lambeu o carambelo de Dezembro, esturricou-se no calor de Agosto e foi para casa às Trindades, antes da hora dos lobos.
Aprendeu o cheiro da flor da amendoeira, das mimosas e dos folares, o gosto das alheiras e das torradas de azeite, das azeitonas e das sanchas, lambuzou-se de amirgãs e tangerinas , tisnou-se no Entrudo, ouviu os cascos dos machos, os sinos a rebate e as campainhas dos enterrinhos,emprestou brinquedos para as cascatas da Praça e estou agora a vê-lo, o caldo já pronto, e a voz da ama, a esticar-se, até às guardas do Adro:
Aprendeu o cheiro da flor da amendoeira, das mimosas e dos folares, o gosto das alheiras e das torradas de azeite, das azeitonas e das sanchas, lambuzou-se de amirgãs e tangerinas , tisnou-se no Entrudo, ouviu os cascos dos machos, os sinos a rebate e as campainhas dos enterrinhos,emprestou brinquedos para as cascatas da Praça e estou agora a vê-lo, o caldo já pronto, e a voz da ama, a esticar-se, até às guardas do Adro:
- Abilinho!
Junqueiro saiu de Freixo mas não saiu a sua infância. E esses dias de berço fizeram-no voltar sempre. De comboio ou de memória. Mas as escarpas, os cardos, os melros, as urzes, as figueiras bravas, os pastores, os lavradores, os simples, o berço, as ermidas, permaneceram na sua obra. Que mais não é do que a sua vida.
Guerra Junqueiro é um dos nossos maiores.
Foi profeta,
Leu a alma dos simples
Humanizou os cardos
Divinizou a natureza
Escreveu contos para a infância
Fez da poesia satírica a sua arma
E da transcendência a sua prece.
Mas se Freixo foi o primeiro poema de Junqueiro, todos nós somos um pouco de Junqueiro.
E se outros o esquecem, o berço que o lembre. Porque esquecer Junqueiro é perdermos a memória. É esboroarmos a nossa identidade.
Como se nos levassem o Penedo Durão. O Douro. Todos os miradouros. A Igreja. O Convento. O Cabecinho. A Misericórdia. A Torre. O Campo Santo. A eira de Zonzinho. Os Sete Passos. A bola de azeite. A torta de espárragos. O queijo das Quinteiras. A capela do Senhor da Boa Morte de Fornos. A Fonte Santa de Lagoaça. O cavalo de Mazouco. A Calçada de Alpajares de Poiares. O Junqueiro Velho de Ligares.O nosso linguajar de xisto e águia.
Como se ficássemos órfãos de alma.

3 comentários:
Desculpa se estou a ser ignorante. Tu e Guerra Junqueiro pertencem ao mesmo rincão e são ambos dois vultos da literatura. Mas Junqueiro, ao que sei, tal como Bocage, renunciou, no fim da vida, a parte dos seus ideais. Quebrou, segundo parece... (Bom, Lenine também o terá feito, segundo a historiografia ocidental). Mas tu nunca renunciarás ao que escreveste, porque só escreveste o perfeito, o acabado, o sublime, o inegociável...
joao de miranda m.
João, por favor, no comparisons!
Acho que essa renúncia de Junqueiro foi um dos seus calcanhares de Aquiles. Apesar disoo, foi sepiltado no Panteão Nacional e,então, nobilitado como um dos maiore vultos da poesia portuguesa.
Hoje, só falam dele alguns freixenistas,poucos historiadores da literatura portuguesa e alguns mestrandos e doutorandos em cultura peninsular.
Sic transit gloria mundi!
Peço desculpa pelas falhas do teclado,sepiltado, neste meu atabalhoado toque.
João, nunca te disse, mas tenho uma leitora assidua que já me perguntou, várias vezes por ti, aliás, pelos teus comentários. Confesso que me senti um pouco menorizada,pois a avaliar pelos encómios aos mesmos, receio que,neste caso, sejam muito melhores as ementas que os sonetos.
Não hája qualquer dúvida que a minha leitora tem bom gosto. Ademas (não te esqueças que,neste momento estou mui cerca de Espanha, já lhe recomendei o Tralapraki.
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