Lá em casa era assim. Assunto de monta discutia-se na sala, porta fechada. Quase sempre era a minha mãe que pregava. O meu pai, canto de galo no começo, ia-se amochando, amochando, até que lhe dava razão.
Nesse fim de tarde de um Outubro frio, a discussão foi de peso.
- Já te disse! Não há mas nem meio mas. Hoje mesmo vais ao ourives e apreças a corrente.
- Mas … e o dinheiro, mulher?
- Vão-se os anéis e fiquem os dedos. Os meus brincos hão-de comprar uma corrente e uma cruz.
Santa Bárbara Bendita
Que no céu estás escrita
Com papel e água benta!
Pedi a Jesus Cristo
Que nos guarde da tormenta! Arre diabo! Os brincos da minha mãe? Hum! Ali havia coisa! Grandessíssima coisa! Eu não me lembrava sequer da aliança de minha mãe! De oiro, só lhe via os brincos a alongar-lhe as orelhas. Não é que me parecesse enfadada do meu pai. Não, senhor! Ela bebia os ares por ele. Ele era um homem pimpão, meio galaroz, de olho faceiro a arregalar-se prás novidades, festeiro e versejador.
Os brincos tinham sido um regalo dele, havia um bom par de anos, aí por Setembro, numa noite de pazes, depois de uma semana em que se mandaram recados um ao outro, ela arisca, ele arrepeso. Os pingentes eram o penhor de que só ela é que lhe morava no coração. Ela fechou os amuos a cadeado.
Pois na tarde a seguir às pazes, lembrava-me bem, andava eu pelos meus treze anos, a minha mãe explicou-se.
Chegava-se a Festa de Nossa Senhora. Corrupiavam as devotas a enfeitar os altares para a festa de Nª Senhora dos Montes Ermos, o mulherio varria as ruas com escovas de giestas e pendurava as últimas flores de papel nos arcos da procissão, o forno do Carril cozia que nem um desalmado, as forneiras não tinham sossego, as moscas desatinavam atrás dos açúcares e das misérias, o ti Águsto Macho andava a anunciar Bailarico Póco, Bailarico Póco, jeireiros sem jeira atiravam a pelota contra as paredes da igreja, raparigas jogavam as nédicas no adro e cantarolavam:
Ó amendoeira
Que é da tua rama?
Por causa de ti
Anda o meu amor em fama!
O António já tinha acabado o trabalho no grémio da lavoura, devia estar a barbear um freguês que lhe gabava o jeito, tens futuro, rapaz, tens futuro, o meu pai na barbearia a rapar as cabeças da ganapada com máquina zero, ponde-vos quetos, mafarricos, e a informar a clientela que vinha aí mais cinema com o Joselito, e o tunante do João estava de certeza com a demais gandulagem a fazer as últimas corridas de bicicleta, com guiadores de arame, o João a acirrar o Tarú, acelera, pá, corta a meta, olha o António Alberto a sprintar. A Guinhas jogava a laranjinha na rua, ora na mão, olha laranjinha, ora no ar, que caiu, caiu, com duas ia acertando, num regato d’água, já três virava cabo de esquadra, nunca mais se viu, a Lequinhas baloiçava a menina da Senhora Júlia, escarranchada nas pernas:
Dlim, dlão
Cabeça de cão
Orelhas de gato
Não tem coração.
Nessa tarde, dizia eu, a minha mãe chamou-me ao quarto dela, tirou uma caixinha do alçapão do tecto, mostrou-me uns brincos, meio enleada:
- Olha, filha, são repentes do teu pai. Bem escusados! Matou-se a trabalhar. Mas que são lindos, são! Deu-mos ontem.
- Muito, lindos! Mas, ó mãe, porque não tem aliança?
- Oh... o teu pai também não tem!
- Mas o pai é homem...
- Olha, filha, há coisas que ainda não entendes, mas a vida é uma carta fechada. Lembras-te, quando a tua irmã Guinhas nasceu? Tinhas tu cinco anos. Era muito linda, rucinha. Aqui, na vila, furam-se as orelhas das meninas, meses depois de nascerem, é..., depois penduram-se umas linhas embebidas em azeite, azeite mesmo, até o buraquinho sarar e mais tarde, aí uns meses depois, compram-se-lhes uns brinquinhos. Nós não tínhamos dinheiro. Lá estão as tuas irmãs a pegarem uma com a outra! Já nem sei o que estava a dizer...
- Que não tínhamos dinheiro, mãe...
- Pois... não tínhamos dinheiro, porque o teu pai sempre ganhou pouco. Os cabelos e barbas não enriquecem ninguém, mas fome nunca passastes. E a nossa Guinhas aguentou até mais tarde as argolinhas de linha, orfãzinha de brincos. A mim custava-me os olhos da cara vê-la assim de orelhinhas ao léu. O teu pai mortificava-se todo por dentro. Vai senão quando, um dia, a meio da manhã, veio numa carreira a casa, com uma caixinha de ourives.
- Já lá vou, ti Ana! É por causa da roupa.
- Oh, mãe, faça de conta que não ouviu!
- Suba, ti Ana, suba! Já me traz a roupa lavada. Mas só para acabar, filha! O teu pai pegou na menina e, às escondidas, enfiou-lhe uns brinquinhos nas orelhas. Oiro de lei! Ela garrulava e dobrava o riso, regalada do presente de luxo. Ele, impante. Podia lá ser, filha dele sem brincos? Reparei que não trazia aliança. Um ano depois, nasceu a Lequinhas. Falei com o teu pai, ele que levasse o meu anel, que quando pudéssemos comprávamos outro. Ele entendeu-se com o ourives, trouxe para casa uns brinquinhos iguais e fez questão de lhos enfiar no buraco das linhas. Parece-me que o estou a ouvir, Maria, prepara-te, vamos tirar um retrato à menina! A menina, de pernas refolhudas e riso sempre assomado, embezerrou e deu-lhe na toleima de se agarrar às orelhas, zumba, zumba, a puxar, a puxar, como se adivinhasse o preço. E foi assim que as tuas irmãs tiveram brincos como as outras.
Por causa da ti Ana Carrasca, a nossa lavadeira, não cheguei a perguntar, de que oiro se tinham despojado para comprarem os meus.
Então e agora, passados estes anos todos, as orelhas da minha mãs já habituadas a reluzirem, iam-se os brincos do perdão, por não sei quê de oiro? Ajuste grave era esse, discutido assim, à porta fechada, que era muitas vezes sinal de trovoada! Nem eu podia saber? Que não dissessem nada às minhas irmãs, era uma conta. Eu era a filha mais velha. Eu já sabia que a vida é um cabo dos trabalhos e os tempos eram bem mais de fuligem que de oiro. Mas elas debicavam ainda no mundo dos adultos. A Lecas empanturrava-se de rolling stones e artistas espanhóis e desenhava bonecos na madeira das paredes. A Guinhas espetava-se na janela, à espera que o vizinho se espetasse na varanda. Os meus irmãos também não deviam ser sabedores. O mais velho estava agora em Tomar, a tirar a especialidade de minas e armadilhas e a contrapiscar as lambisgóias, que todas à uma, queriam ser madrinhas de guerra dele. Um dia destes há-de ser mobilizado, palpitava o meu pai, mais informado que nós nas andanças da guerra.
Dizia-se na barbearia, os turras estão a recuar, aquilo é coisa de pouca dura. Mais coisa menos coisa, acaba-se a traulitada! Que porra! Angola é nossa, carai! Só o Sebastião, o filho da ti Agusta, é que costumava deitar veneno nas notícias da emissora nacional. O meu irmão mais novo empanzinou-se do mofo do seminário, arranjou emprego em Lisboa e nas férias trazia um gira-discos que era o cantor portátil dos bailes no combóio e das serenatas na Praça e no Convento.
De maneira que restava eu.
A minha mãe não ia à igreja, por isso se confessava à Srª Amélia, à Srª Júlia e a mim. A Srª Amélia tinha uma varanda, por cima de um galinheiro, e a minha mãe passou as tardes de domingo da minha infância a fazer os meus saiotes de lã, os carpins das minhas irmãs e os meotes do meu pai com quatro agulhas, o novelo no regaço, tic, tic, tic, tic, e a falar da vida com a Srª Amélia, que era um velhinha de cara engelhada e cabelo ralo, que aos dias de semana resmungava o terço à janela, avé Guinhas, cheia de graça, onde irá aquela, já passou cinco vezes pra cá e pra lá, hum coisa boa não é, santa Guinhas, mãe de Deus, um rais ma partiram, lá está aquele bardino a olhar pró que num deve, e pedia perdão a Nª Senhora pelos pecados de toda a vila. Nesse tempo, a minha irmã mais nova ia muitas vezes dormir com ela, como se quisesse herdar uma avó. A Lequinhas pelava-se por aquela casa. Das amirgãs e dos gachos, mana, é que eu gosto. E da maceira para amassar o pão? E das talhas de azeitonas? E das maias, que se comem mal o maio rebenta? E da arca, mana? Daquela cheia de enxoval por estrear? E das panelas e sertãs de pés na cozinha, com batatinhas alouradas com azeite, hum que regalo, mana, e meia folha de louro, que a Srª Amélia é meia sumítica? E da varanda de madeira velha quase a esquadrilhar-se, qualquer dia catrapuz cai em cima da chinfrineira do galinheiro? E o Convento lá ao longe a esfumar-se como um primo em quarto grau?
Nós éramos todos um pouco orfãos de parentes. Na vila, não tínhamos casa de avós, nem de tios, e a Srª Júlia, a Srª Amélia, a tia Lucinda e a tia Chica distribuíam por nós tangerinas, couves, tomates, vasas, batatas e outros mimos de tias adoptivas. Quem sabe se a Srª Júlia ou a Srª Amélia não estavam a par do negócio do oiro? Coscuvilhei de mansinho, mas nada. Eu caia aqui redonda se sei alguma coisa, Rita! Disse a Srª Júlia. A Srª Amélia nem tugiu nem mugiu. Se nem as amigas sabiam, é porque o assunto era urgente como a extrema-unção. Desandei para casa e esperei que o meu pai voltasse à noite com uma caixinha forrada de veludo e desfizesse o mistério. Mas, se foi ao ourives como a minha mãe pediu, não se deu por achado. O que for soará, como dizia a minha mãe, quando lhe faltava um fio para entender o mistério da vida.
E soou. Já o frio de Novembro nos fazia frieiras nos dedos.
- Maria Rita , Olga Maria e Maria Julieta, preciso de falar convosco.
Cheirava sempre a esturro, quando a minha mãe nos alongava assim os nomes.
- Como já sabeis, o vosso irmão está quase a ir pró Ultramar e todos os militares levam uma corrente de oiro e uma cruz. Eu e o pai não temos dinheiro e eu lembrei-me de vender os meus brincos para comprar uma corrente ao vosso irmão, mas o dinheiro não chega.
- Venda os meus, mãe.
A Lequinhas levava já as mãos às orelhas.
- Também pode vender os meus, mãe.
A Guinhas passou as mãos nos brincos, a fazer-lhes cosquinhas, como se se despedisse.
Com que então uma corrente de oiro? E por causa da guerra? Ai, se falo, rebento que nem uma mina! E calei-me. Eu tinha dezoito anos. Eu não tinha anéis nem pulseiras, nem medalhas nem correntes como as outras. Os brincos eram a minha única jóia. Lembrei-me do meu vestido azul de fioco. O das outras era de fazenda. Raios me pelem, se eu não odiava aquela guerra que me despojava a mim da minha única vaidade!
E estendi os brincos na palma da minha mão. E senti que as minhas orelhas ficaram viúvas e eram as minhas primeiras vítimas de guerra.
No Domingo à noite, o meu pai metralhou a notícia, assim, à volta do lume, com as minhas irmãs, a guerrearem-se por causa dos lugares no escano, ali, fico com cabras nas pernas, já me vou embora! Vai! Quem te pega?
- Calai-vos! O vosso irmão vem amanhã. Foi mobilizado para Angola. Vem despedir-se.
E as minhas irmãs calaram-se que nem monjas. A minha mãe baixou mais a caldeira sobre o lume e estendia agora as sardinhas sobre as brasas. Eu olhei a cara da minha mãe. Não lhe descortinei um pingo de nada. O meu pai esperava que alguém o livrasse do peso da palavra.
- Estupores! Se mandassem mas era os irmãos deles! Ao menos que o deixassem passar o Natal!
A minha raiva crescia.
- Eles são heróis de varanda e os nossos é que vão pró mato!
- Cala-te! O vosso irmão tem um dever a cumprir.
Não sei se o meu pai acreditava mesmo que a pátria se estendia por continentes e que tinha de ser defendida por aqueles novos guerreiros missionários que levavam metralhadora em vez de espada. Ou se apenas nos queria defender dos olhos e dos ouvidos do poder.
E o meu irmão chegou para se despedir, vestido de verde e castanho, como se fosse um lagarto. Parecia que trazia no corpo a África que tinha aprendido na geografia da escola do Passeio. Não havia raiva minha nem lágrimas da minha mãe que o livrassem da missão. E na hora da despedida, a minha mãe tirou do bolso do avental uma caixinha preta, forrada a veludo vermelho, e pendurou ao pescoço do meu irmão uma volta de oiro com um crucifixo.
- Nª Senhora dos Montes Ermos e o Divino Coração de Jesus te tragam são e salvo, meu filho!
Talvez a minha mãe tivesse feito um acordo entre a Mãe e Seu Divino Filho.
E fez.
E se os meus pais não tivessem alianças, se as mulheres da minha casa não tivessem brincos, se o meu irmão não tivesse cruz, será que o meu irmão não tinha volta? Se a cruz travou um estilhaço no coração do meu irmão, ele não contou. Se a corrente de oiro o salvou das minas escondidas no coração daquele terrunho vermelho, ele não desconfiou.
Agora, alguém me dá conta de uns brincos de oiro velho, com que o meu pai ganhou o perdão de minha mãe? E de três pares de brincos meninos, enfeitados de lágrimas?
Como vês, mãe, já procurámos, mas dos brincos nem rasto. De vez em quando, vejo-te apalpar a orelha, à procura do buraco do brinco que se fechou, cansado de esperar. A aliança que trocaste pelos nossos brincos também levou sumiço. Mas a tua mão sem anéis continua a aconchegar-nos a vida, como se ainda tivesses o poder de curar as dores dos meus joelhos, as moléstias da nossa Lecas, de calar os berreiros da nossa Guinhas, de mandar encomendas para o colégio e para o seminário, que o meu irmão João havia de deixar rançar, de lavar as fardas do Antoninho sempre que ele vinha de licença.
A tua mão sem anéis continua a juntar-nos no Natal, na nossa vila, onde continuamos orfãos de parentes, mas herdeiros de memórias, que legamos aos teus netos e bisnetos.






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