quarta-feira, 25 de março de 2009

Nasceu!



Nasceu! Pensava eu. Em boa hora! Eram precisamente 13 horas e cinquenta minutos, após três longas horas de espera e outras tantas visitas ao estabelecimento. Outros nasceram antes dele. De várias cores, a enriquecer esta sociedade pluriétnica. O momento crucial foi de aleluias. É sempre assim. Quanto mais longos os preliminares, a ansiedade, os falsos “éagora”, “vem, vem”, maior, mais ditosa é a hora do zénite.
A sala estava cheia de ansiosos e ansiosas, que iam mastigando, entre dentes, a raiva da espera sentada, enquanto transeuntes se pavoneavam lá fora, num gozo pleno deste sol de Março. A conta-gotas, iam entrando requerentes. Funcionárias preenchiam papéis com dados pessoais dos mesmos, mediam-lhes a altura com uma rasoura, um aparelhómetro piscava-lhes o olho e fotografava-lhes os semblantes enfadados. De vez em quando a maquineta engasgava-se e indeferia as carantonhas. Os pacientes compunham outra momice e o raio xis registava outro esgar de papão. Depois rabiscava-se, direitinho, o nome, que a máquina polivalente se encarregava de retorcer.
Agora, por volta das 13 horas e 43 minutos de ontem, eu conferia, a pente fino, os meus dados pessoais, e a funcionária explicava, pacientemente, que ainda não era bem a hora. Que podia ter de esperar algum tempo, até ter a minha vida, inteirinha, nas minhas mãos.
Um dia destes, vou ter, bem juntinho a mim, aquele que há-de testemunhar a minha cidadania, o meu voluntariado, a minha loucura, e me há-de acompanhar em qualquer morada real ou inventada, na rua de qualquer país, em casa, mesmo até no amirgã. Até que a morte nos separe.
Nasça ele em boa hora, venha bem e perfeitinho, o meu remoçado BI, o meu ansiado cartão de cidadã.

domingo, 22 de março de 2009

Mão estendida



Que eu me lembre, os pedintes da Dona Antoninha apareciam mais no Outono e no Inverno. Acossados pelo frio e pela nudez das árvores, entregavam-se à santidade das senhoras que, além de zelarem pela compostura dos altares, rezavam rosários. A D. Antoninha recebia os pedintes antes das trindades. Quem chegasse antes esperava no Outeiro, que tempo dava-o Deus de graça. Chegada a hora, eles entravam, encolhiam-se nos primeiros degraus da escadaria, à espera. Ela chegava e, do alto da escadaria, comandava um rosário colectivo, que lhe havia de purgar qualquer pecadito venial e abreviar um tempinho no Purgatório. No fim, prodigalizava os mendigos com uns tostõezitos, que entornava nas boinas cossadas e sujas dos caminhos.
Anteontem, um senhor engravatado, nos seus cinquenta anos, pediu-me cinquenta cêntimos para um café. Estava junto à Segurança Social. Ainda me disse que recebia a pensão da reforma no dia seguinte. Passei adiante. Um café não é esmola que se dê.
Ontem, ia eu a conversar ao telemóvel, junto da Cruz Vermelha, o mesmo senhor engravatado e bem falante interrompeu-me e pediu-me umas moedas para completar a refeição.
Lembrei-me do meu país em Bruxelas.
Hoje, o fogo do Purgatório apagou-se, o Inferno mudou-se para cá e não há reza que nos livre dele.
Só a mão estendida dos pedintes permanece.

sábado, 21 de março de 2009

Poesia

Aniversário

© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr



Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)


Aniversário

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

quinta-feira, 19 de março de 2009

É prásemana!

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3º Capítulo

Lá fui à casa nova do registo Civil. Uma funcionária simpática atendeu-me de imediato.
- Bom Dia!
- Vinha renovar o BI.
- Desculpe, mas não é possível. Ainda não temos sistema. O sistema ainda não chegou. Estamos à espera dele hoje. É melhor vir amanhã ou prá semana.

Alguém falou que os vistos para Angola demoram uma eternidade? Não admira! Normalmente, os bons alunos ultrapassam os mestres!
Alguém comentou que, se o processo Casa Pia decorresse na Áustria, todo o azar era dos arguidos?
A funcionária acertou na mosca. O culpado é o sistema. O nosso sistema. Julgue-se na Áustria!

terça-feira, 17 de março de 2009

É pradepoisdámanhã!



2ºCapítulo

Lá fui eu. Eram 9h menos três minutos, já estava à porta da repartição. Três utentes já faziam fila. Avisos a letras gordas informavam que, a partir de ontem, só assuntos urgentes eram tratados ali. Sem termos parâmetros de avaliação da nossa urgência, deixámo-nos ficar. Passa uma senhora:
- O que estão aqui a fazer?
Cada um sumariou a sua urgência. A senhora continuou o seu passo, abriu a porta da repartição e fechou-a novamente.
Continuámos à espera, na esperança de que os avisos não fossem para nós.
Passa outra senhora, dirigindo-se a outra repartição.
- O que estão aí a fazer? Não lêem o que está aí escrito?
Ainda respondi que estávamos à espera, porque a outra senhora não nos tinha mandado embora.
- Isso é consigo.Se quer ficar aí, fique!
Estávamos a ficar tontos. Homens carregavam caixotinhos de papéis para uma carrinha de mudanças. Finalmente, uma terceira senhora chegou e, depois de nos informar que estavam em mudanças, me aconselhou a dirigir-me às novas instalações, depois de amanhã. Lamentei que não nos tivessem informado, com clareza, antes. Fiquei a saber que, antes, ninguém sabia com clareza o que iria passar-se. Nem a menina nem a senhora do primeiro capítulo.

É prámanhã!

1º Capítulo

www.culturgest.pt/arquivo/2008/reparticao.html

Ontem ia renovar o meu BI. Andei semanas a decidir-me. Informei-me sobre os documentos necessários. Cheguei à repartição. Afinal ia ser rápido. Não havia fila. Uma menina bem disposta mostrava uma fotografia de fim de semana a uma senhora que olhava, sonhadora, para o retrato. A menina viu-me.
- Vinha renovar o BI.
Senhora (em surdina) – Só amanhã!
- A que horas?
- Das nove às dezasseis!
- Mas ainda só são 15:30m!
- BI só amanhã!
Menina (com ar de estagiária)- Estamos em obras!
Volto lá hoje. Ou será que é amanhã?

sexta-feira, 13 de março de 2009

Feios, porcos e maus


No Centro de Saúde

Ontem, Susana M., grávida de fim de tempo, dirigiu-se ao Centro de Saúde, para ultimar o processo burocrático que antecede o parto e a licença de maternidade. Faltava-lhe apenas a vinheta do seu médico de família, num dos documentos. Meteu-se na fila do bloco X, frente a um guiché, onde a funcionária ia cuidando de baixas, marcação de consultas e afins. Susana, mal se aguentando, ainda esperou que fosse aviada meia dúzia de utentes, na esperança de que algum deles ou a funcionária vissem o seu visível estado e lhe dessem a cívica e legalíssima prioridade. Cansou-se. Decidiu sair da fila, chegar-se ao postigo e perguntar:
- Não há prioridade para grávidas?
- Que grávida, que grávida? Não vê que me está a interromper? - pergunta a zelosa burocrata.
- Aqui a prioridade é de quem chega mais cedo!, vocifera um grandalhão.
- Desculpe, podia dar-me o livro de reclamações?
Susana é atendida de imediato, com pedidos de desculpa por parte da escriba, que continua o seu rosário de queixas, mal a gestante sai do bloco X.

No hipermercado

Susana M. vai ao hipermercado. Faltavam-lhe ainda os últimos pormenores do enxoval. A mãe de Susana vai carregando o carrinho. Susana dirige-se para a fila das grávidas, que não está a funcionar. A funcionária da fila do lado vê-a, chama-a e dá-lhe prioridade, deixando em convulsão duas clientes, uma das quais desistiu mesmo das compras e abandonou o local, barafustando contra a funcionária e a grávida que, se via, nem estava nada mal.
Susana ainda hesitou, mas a menina da caixa disse-lhe que não se importasse com o alarido e que, ali, as grávidas tinham prioridade em qualquer caixa. Susana pagou e agradeceu o reconhecimento da sua legalíssima prioridade. A menina da caixa sorriu e desejou-lhe uma boa hora.

De como se batiza um vigário

rio Jordão


(Autocarro turístico cheio de votantes aposentados da freguesia de Ribais de Esteva. Destino – Galiza. Excursão patrocinada pelo Senhor Presidente da Junta, com demonstração apelativa subordinada ao tema ”Como se ganha uma Junta”, a cargo do detentor actual do cargo, Senhor Honório Benavides. No centro da viatura viaja um grupo de mulheres, que vão entretendo o autocarro com memórias de outras excursões da Junta e da Paróquia. Todos os seniores se riem a bandeiras hasteadas. Todos não. Quase todos. Os dois homens dos lugares da frente, olham-se, falam-se, e, de vez em quando, dão indicações ao motorista, que se ia enganando e quase levava à Madeira os turistas da reforma.)
Mulher (atentando na falta de atenção do casal da frente e alteando a voz) – Eh pessoal, lá vamos nós à terra onde se podem casar os maricas! Razão têm os padres. Isto é o fim do mundo!
Mulheres do centro – Ah! Ah! Ah!Ah! Ah!Ah! Ah! Ah!
Mulher (na esquerda do autocarro, incomodada com o bruá) – Ora! Ora! Os piores são os padres! Eles que olhem para dentro! Padres-gays é o que não falta!
Mulher do centro (defendendo o clero e ripostando à oposição) – Eles foram sempre muito homens. Lá prás minhas bandas, o senhor vigário era padrinho dos filhos todos da governanta que vivia lá em casa.
Mulheres do centro – Ah! Ah! Ah!Ah! Ah!Ah! Ah! Ah!
Mulher (na direita do autocarro, juntando-se às do centro) – Esses sabiam-nas fazer! Cobravam-se bem. Nos batizos, casamentos, enterros e derrama, metiam a unha, mas no confesso num levavam nada e uma pessoa saía de lá alibiadinha. Hoje, já num é bem assim. O nosso prior, um rapazeco nobo, até me disse a mim e a mais umas quantas zeladoras que nos confessássemos a Deus. Se isto se biu alguma vez!
Mulher do centro (aplaudindo e confirmando a tese da direita) – Lá isso é verdade. Quando eu era catraia, o meu pai mandou-me levar um cântaro de vinho ao senhor abade. Era para pagar a côngrua. Quando lá cheguei, derreadinha, ele perguntou-me, ó rapariga, isso vem bem medido? Não entornaste nada? Mas fora isso, era um bom homem. Honra lhe seja feita! Nunca se falou dele com nenhuma mulher!
Outra mulher do centro – O nosso era muito amigo do povo. Esperto como num haver. Fazia excursões a Lourdes, à Terra Santa, euseilá! Um dia, num passeio a Jerusalém, disse-me para trazer uma garrafinha de água do Jordão. Custou-me aquele mijo os olhos da cara. Já nem sei quantos dólares foi! Eu, a pensar nos netos, trouxe um garrafão. Quando o meu Dominguinhos foi a batizar, levei a água santa e num é que ele me disse que aquilo num serbia pra nada, que melhor que aquela era a que ele benzia? O quê? Num serbia o quê? Eh, caraças, deu-me cá uns calores, que despejei o garrafão do Jordão por ele abaixo. Inda lhe perguntei, o senhor tem comissão no Jordão, ó quê?
Mulheres do centro – Ah! Ah! Ah!Ah! Ah!Ah! Ah! Ah!
Mulher da esquerda - Ah! Ah! Ah!Ah! Ah!Ah! Ah! Ah!
Mulher da direita - Ah! Ah! Ah!Ah! Ah!Ah! Ah! Ah!
Quase todos os outros - Ah! Ah! Ah!Ah! Ah!Ah! Ah! Ah!
Homem da frente – Chegámos à Galiza!

sexta-feira, 6 de março de 2009

A caderneta


A mãe ficou triste. O pai frustrado. Os avós, nem se fala. Receberam hoje a primeira caderneta da escolinha que atesta que o menino, afinal, não é o máximo. Tem dois ou três mínimos. Ao fim e ao cabo, negativas.
Bem, é certo que há muito tempo que o menino faz a pitinha ó ovo, constrói arranha-céus de legos, balança-se no cavalinho de plástico, folheia páginas dos livros, aponta ( enquanto não lhe disserem que é feio), interage, quer dizer, o menino empurra, o menino dá beijinhos, o menino cantalenga, o menino fala com as letras todas do abecedário menos o l, o menino chuta com os dois pés, o menino pede colo, quer dizer, o menino atingiu e passou mesmo para os objectivos da sala seguinte.
Mas o menino tem negativas. Uma, a cocó. O menino não larga a fralda. O pai já experimentou a estratégia da imitação, mas como não era a hora, saíram os dois a assobiar da casa de banho. O padrinho comprou-lhe uma mota com um potinho no lugar do selim, mas o menino desequilibrou-se e o cocó intimidou-se. A avó materna leu-lhe a história do pote que batia palmas, mas o dele não tinha pilhas e ele não ficou motivado. A mãe cantou-lhe e ele adormeceu no pote, de barriguinha cheia. O avô paterno levou-o abaixo de uma oliveira, mas ele limitou-se a regar a árvore.
Faz-se um buraquinho na fralda, lembrou a avó paterna, mas o cocó ficou preso.
O pior mesmo, admite a avó materna, é a negativa a atenção. O menino não se concentra. Com vinte e dois meses, já tinha de ouvir, com atenção, as histórias da educadora. Afinal, todos se sentam, redondinhos, à volta da Quica. Todos, de olhinhos abertos, todos caladinhos, sentadinhos em ferradura, todos a ter medo, quando o lobo come a avó, todos a bater palminhas, quando chega o caçador. Todos menos ele, diz a caderneta. Na hora do Capuchinho, o menino tem a sala só para ele, o menino corre, chuta a bola, vai à janela espreitar o avô que nunca mais chega, o avô que o há-de levar ao parque, lhe há-de mostrar os patos no lago, que há-de jogar futebol com ele num campo de baliza grande, que lhe há-de ensinar os nomes dos pássaros e até as casas deles, que o há-de levar às cavalitas, a trote e a galope, a caminho da lua.
Ora, ora, resmunga uma tia, professora aposentada. Nenhuma escola dá notas por passeatas ao ar livre! Ele que não se concentre, não!
O que vale é que o avô é meio surdo e o neto meio distraído, e, perdidos e achados, é vê-los, no parque, atentos à passarada.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Questão linguística

ruifms.wordpress.com/2008/12/

Por que razão os linguistas não consideraram ainda (que eu saiba) a hipótese de classificação do linguajar infantil como um dialecto ou mesmo uma língua oficial? Eu sei que as variantes seriam imensas, mas, nestes tempos de rigor classificativo e de precisão identitária, não seria despiciendo este tema. É que o bebé tende a imitar os sons adultos, mas, por insuficiência articulatória ou qualquer outra, amenina-os e cria até neologismos. Senão, leia-se este diálogo.
Avó (com o neto ao colo e apontando, excitadíssima, uma esfera de lágrimas de fogo a subir os céus no dia de Stª Engrácia) – Olha, meu amor, um foguete no céu!
Menino – Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Avó – Viste este? Chhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, pum!
Menino – Chhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, pum!
Avó – Olha outro! Tão lindo! Tátátátá! E outro! E outro! Tanto fogo!
Menino – Chhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! Pum! Pum! Pum! Tátátátá!
Avó – (explicando a qualidade do fogo, não fosse o bebé assustar-se) É fogo de artifício, meu amor! Olha, acabou-se. Já não há mais foguetes.
Menino (meio triste e ainda à espera) – Vó! Onde tá o fodo? Os fodetes?