
Nasceu! Pensava eu. Em boa hora! Eram precisamente 13 horas e cinquenta minutos, após três longas horas de espera e outras tantas visitas ao estabelecimento. Outros nasceram antes dele. De várias cores, a enriquecer esta sociedade pluriétnica. O momento crucial foi de aleluias. É sempre assim. Quanto mais longos os preliminares, a ansiedade, os falsos “éagora”, “vem, vem”, maior, mais ditosa é a hora do zénite.
A sala estava cheia de ansiosos e ansiosas, que iam mastigando, entre dentes, a raiva da espera sentada, enquanto transeuntes se pavoneavam lá fora, num gozo pleno deste sol de Março. A conta-gotas, iam entrando requerentes. Funcionárias preenchiam papéis com dados pessoais dos mesmos, mediam-lhes a altura com uma rasoura, um aparelhómetro piscava-lhes o olho e fotografava-lhes os semblantes enfadados. De vez em quando a maquineta engasgava-se e indeferia as carantonhas. Os pacientes compunham outra momice e o raio xis registava outro esgar de papão. Depois rabiscava-se, direitinho, o nome, que a máquina polivalente se encarregava de retorcer.
Agora, por volta das 13 horas e 43 minutos de ontem, eu conferia, a pente fino, os meus dados pessoais, e a funcionária explicava, pacientemente, que ainda não era bem a hora. Que podia ter de esperar algum tempo, até ter a minha vida, inteirinha, nas minhas mãos.
Um dia destes, vou ter, bem juntinho a mim, aquele que há-de testemunhar a minha cidadania, o meu voluntariado, a minha loucura, e me há-de acompanhar em qualquer morada real ou inventada, na rua de qualquer país, em casa, mesmo até no amirgã. Até que a morte nos separe.
Nasça ele em boa hora, venha bem e perfeitinho, o meu remoçado BI, o meu ansiado cartão de cidadã.









