sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Bagatelas

Chagall

Ontem à noite, estive com amigos, à roda de uma mesa. Antes tínhamos debatido uma situação problemática decisiva para a nossa instituição. Tínhamos usado as palavras circunstanciais e precisávamos das outras. Assim como de um cervejinha fresca. Ou de um bom vinho tinto. Falámos de mil e uma coisas. De música. De nomes. De gente que não está afim de teatro. De gente que sobrevive de teatro. Da Susana que trabalha na Alemanha e vê crescer o filho no ecrã do computador. De mulheres que saem sem os maridos. De mulheres e homens que falam das mulheres que saem sem os maridos. De homens que sabem passar roupa. De rapazes que batem nas namoradas. De namoradas que gostam. A batida dos Couple Coffee juntava-se a nós. O Artur trouxe uns tremocinhos e uns amendoins. Um queijinho e um chouriço assado. Não falámos da crise. Só de bagatelas.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Como desenhar um pássaro

Paul Klee

Jacques Prévert
Tradução-Homenagem: Carlos Drummond de Andrade


Pinte primeiro uma gaiola
com a porta aberta.
Em seguida pinte
alguma coisa graciosa,
alguma coisa simples,
alguma coisa bonita,
alguma coisa útil...
ao pássaro.
Depois, coloque a tela contra uma árvore
no jardim,
no bosque
ou na floresta
e esconda-se
atrás da árvore
sem dizer nada, sem se mexer.
Às vezes o pássaro chega logo,
mas pode levar muitos, muitos anos
até se resolver.
Não desanime,
espere.
Espere, se preciso, durante anos.
A velocidade ou a lentidão da chegada
do pássaro, não tem a menor relação
com a qualidade da pintura.
Quando ele chegar
(se chegar)
mantenha o mais profundo silêncio,
espere que ele entre na gaiola.
Depois que entrar,
feche lentamente a porta com o pincel.
Aí então
apague uma por uma todas as varetas.
(Cuidado para não esbarrar em nenhuma pena
do pássaro.)
Finalmente pinte a árvore,
reservando o mais belo de seus ramos
ao pássaro.
Pinte também a verde folhagem e a doçura do
vento,
a poeira do sol,
o rumorejo dos bichinhos da relva no calor da
estação.
Depois aguarde que o pássaro se decida a
cantar.
Se ele não cantar,
mau sinal:
sinal de que o quadro não presta.
Mas bom sinal, se ele canta:
sinal de que você pode assinar o quadro.
Então retire suavemente
uma pena do pássaro
e escreva o seu nome a um canto do quadro.
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Just do it yourself!

Pablo Picasso

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Quem é que nos salva?


Cranach

Lógico!

Neto de 21 meses:
- Vó, faz uma lua!
Vó de anos sem conta, a corrigir a ordem:
- Se…
Neto, bom aluno e mal falante:
- fafavô!
Vó, a tremer-lhe o jeito:

Neto, campeão da lógica:
- Ai, tã lindo, vó! Lua cheia. Lua bazia!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Num é vedade!


- Num é vedade!
Eu não devia ter começado pelo fim. Se não tivesses dezanove meses, se não me ensinasses a baralhar os tempos, se já tivesses ordenado as horas, a manhã, a tarde e a noite, se não pedisses para ver a lua de manhã e não te apetecesse ir passear, quando a hora já é escura, eu não tinha começado assim.
Tinha dito que a nossa conversa sobre a verdade aconteceu ontem, naquela meia hora de eternidade que acontece antes da história da noite, quando tu saltimbancas na cama da avó e os dois lengalengamos o rei, capitão, soldado, ladrão, o pimpampum cada bola mata um, ou cantarolamos o giroflé, flé, flá.
Como sempre, havia o tempo certo para a história. Havia a almofada para encostares a cabeça, a luz ensonada do candeeiro-avião, o livro a espalmar-se nas minhas mãos. A história de ontem era “ o soldadinho de chumbo”.
Mas ontem, esse tempo demorava. Tu querias andar a trote e a galope, numa cavalgada desenfreada, num cavalo já cansado que eram as minhas pernas.
– Não! Mais cavalinho, não! A avó está cansada. A avó é velhinha!
Olhaste para mim. Talvez não tivesses entendido. Encostaste a cabecinha na minha almofada, na concha do meu pescoço, e disseste, sério e seguro da tua verdade.
- Num é vedade!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Neighborhood People



Que Obama já semeou esperança no mundo todo, excepto talvez nos investidores, já muita gente repetiu até à exaustão. Que o homem é bonito, que dança bem, que fala bem, que tem linha directa para o nosso coração, já suspiraram muitas mulheres. Que Michelle é elegante, já descobriram muitos costureiros. Que, afinal, os americanos não são tão conservadores e racistas, já engoliram muitos europeus. Que mummy e daddy Obama são cool, já acharam muitos meninos. Que o negro está na moda, já enraiveceu muitos klans. Que o Presidente americano seja omnipotente (atributo até agora só atribuído à divindade), já sonhou metade do mundo. Que Barack retirou valores do baú das velharias (a confiança, a responsabilidade, a solidariedade), já contentou muitas ONGs. Que o homem é quase divino, já pasmou muitos humanos.
Que Barack recuperou o Neighborhood Ball, ‘cause we are neighborhood people, é o máximo, digo eu.
É isto que não temos. Ninguém é vizinho de ninguém. Ninguém dança com ninguém. É isto que nos falta. Alguém que seja nosso vizinho e, se possível, que nos fale directamente ao coração.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Paradoxos


pablo-picasso-don-quixote

Há um contra-senso nos provérbios. Penso até que já terá havido declaração de guerra entre as seguintes premissas acumuladas desde que o homem se soergueu nas suas pernas traseiras:

O calado é o melhor,
Burro que não fala passa por inteligente,
O silêncio é d’oiro,


apregoadas pelo senso comum, por outras palavras, o siso de toda a gente,

e o seu grande opositor, igualmente vetusto,

A verdade é para se dizer,

homiliado pelo cardeal patriarca, já com idade para ser politicamente correcto, e doutrinado pelos pais, os avós, os professores e a Teresa Guilherme.

O catecismo dos mediáticos apoia os primeiros e argumenta que a verdade, porque é multifacetada e colide com objectivos eleitoralistas, deve ser contornada com subserviências contorcionistas e,sobretudo, arredada do púlpito e dita somente de cada um para si.
Questionados os apoiantes da segunda facção beligerante, remeteram-se ao silêncio.

Fear

communities.canada.com/vancouversun/blogs/the...
O primeiro passo foi uma camisola.
Uma camisola em castanho e verde tropa, cores da minha natureza.
Entrei na loja.
A menina, que sim, que tinha o meu tamanho. O espelho, que não, que me servia nas orelhas. A menina discordou. Que me assentava que nem luva. Agradeci e acrescentei um lugar incomum. Que a loja era para gente jovem. Toda a gente sabe que uma loja jovem é sobretudo para gente mais velha. E começámos a falar de idades. De jovens, de velhos e de gente assim assim. Até de novos-velhos e de velhos-novos. Tristeza enevoava-lhe o discurso e os olhos. Era uma assistente social a vender trapos. A mim, habituada a mobilidades, não me espantou o contra-senso.
O jeito dela me servir umas palavras de atenção foi o segundo passo.
Que não desistisse. Que havia de encontrar um lugar onde havia de apoiar os que precisam. Desta vez foram só lugares comuns.
Ninguém mais entrou na loja. Ela falou do futuro. Com medo. Vou voltar lá hoje. Fiz dieta e talvez a camisola já me sirva.

Dezanove!



- Professora!
Professora!
Parei. Ela atravessou a rua, naquela corridinha de pardal.
- Tenho uma boa notícia. Tive dezanove a Português, na exposição oral!
- Dezanove?
Não é que duvidasse da nota. Aluna inteligente, com um inglês perfeito, falava-me fluentemente de sonhos, amores e desamores. Como sabe fazer uma adolescente. Vi-a uma vez no Cefas a cantar à capela, na Festa da Mãe da comunidade ucraniana. Orgulhosa do seu país, da sua cultura. O problema, diziam-me na escola, era o português, que começou a aprender já depois da escola primária. Angustiava-me que o travão da língua lhe afectasse o rendimento escolar. Um dia, encenei com ela e o João um conto de Torga. Fez de Nossa Senhora, levada ao colo pelo Garrinchas até à fogueira da Consoada. Sonhava sentir plenamente a palavra dos poetas portugueses.
Eu saí da escola. Ela continuou a batalhar. A vencer os tropeções da língua.
Ontem teve um dezanove num trabalho sobre Fernando Pessoa. Agora já sonha em Português.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

À Socapa


Magritte




Aquele canto é um lugar íntimo de beijos, abraços, passeatas de cãozinho, coisas que se querem com recato. Um sítio de socapa. É um lugar para dois. Mas não é seguro. É certo que fica nas traseiras de uma resma de prédios, que fica encostado a quintais e muros, mas tem janelas e varandas por cima, com lençóis pendurados a secar.
É verdade que os dois chegaram no intervalo do almoço. Ninguém se ia pôr à janela nessa hora. Um deles poisou a mochila, sacou de um maço de tabaco, abriu-o, serviram-se de uns cigarros estreitos, e desataram a puxar o fumo.
Eu almocei mais cedo, nesse dia, e estendia a roupa às horas menos frias do Inverno.
Eles olhavam de soslaio. Eu via-os de cima. Jovens. Muito jovens, livres, longe, metidos na sua vida, sem fazerem mal a ninguém. O tempo era de certeza escasso, porque eles despacharam os cigarros num instante. Devia estar quase a tocar para a aula, pensei. Eles puxaram a última fumaça, espezinharam as beatas, que se embrenharam na terra. A seguir, chuparam rebuçados, olharam em volta, endireitaram as mochilas, olharam para os estendais e foram-se embora.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O Enfermeiro Batista

Tinha um sorriso de festa o Enfermeiro Batista. E digo tinha, porque o presente da vida se transforma, com um fulminante, em pretérito imperfeito. Era grande. Curava feridas de todas as cores. De todas as idades. As do corpo. As da alma.
Vi-o no Forum há dias. Passada larga, gesto franco, desfraldado, a caminho da Bertrand, a perder-se na cultura.
Não, este não é o texto que se escreve a dourar vidas. A polir manchas de momentos mais cinzentos. Nem ele havia de o querer.Este é o texto de gritar, no mais fundo do silêncio, que ficámos todos mais sós. Este é o texto de gritar que a nossa dor ficou mais sombra.
Não caiu no hospital, onde humanizava sofrimento e medos. Foi ali, no Centro de Aveiro, num sítio de festa e luz.
E a vidinha continua, mesmo quando tomba um Homem Bom.

A culpa é do Veloso!


Anda uma formiga atarefada que nem eu a bisbilhotar migalhas nos torrõezinhos da terra para me precaver contra a míngua do Inverno, a contar as moedinhas pretas do porquinho e a congeminar em que banco as hei-de aferrolhar, a persignar-me antes de qualquer momento de aflição, não vá Nosso Senhor esquecer-se de mim, e salta-me a voz roqueira, jazzística, dragona do Veloso, a rir-se que nem um perdido deste meu frenesim anti-crise.

Pára de chorar
E dizer que nunca mais vais ser feliz
Não há ninguém a conspirar
Para fazer destinos
Negros de raiz
Pára de chorar
Não ligues a quem diz
Que há nos astros o poder
De marcar alguém
Só por prazer
Por isso pára de chorar
Carrega no batom
Abusa do verniz
Põe os pontos nos Is
Nem Deus tem o dom
De escolher quem vai ser feliz




Parei. Ele mandava: Pára de chorar. Até aí, menos mal. Cada um chora conforme lhe dá na real gana. Eu cá choro por todos os poros que é uma maneira de dizer que me mato a trabalhar. A minha lufa-lufa é mesmo uma forma de carpir. Parece que a canção é de alterne. Oh, oh, nessa não caio eu. Nunca me deu para alternices. Não me puxa, pronto. Se for só usar verniz, tudo bem. E foi o que fiz. Deixei trapos e pratos e fui pintar as unhas. Aperaltei-me e fui até ao café ler o jornal.
Na rua, a chuva caía gélida. Dois ou três estudantes corriam para a escola. Encapucei-me e ia a virar a esquina, quando duas senhoras sorridentes e prestáveis me interromperam:
- Temos aqui uma lembrança para si! É de graça!
-??? (Hum? O Pai Natal disfarçado de vendedoras de graças?)
- Escolha entre estas três pagelas, por favor!
Quase me comoveu a generosidade das senhoras e escolhi uma que se intitulava: “O sofrimento humano vai acabar!” Sempre queria saber qual era a receita.
- Ah, esse é muito bonito. Acredita que o sofrimento vai acabar?
- Não!
- Mas olhe que vai! Deus….
Lembrei-me do Veloso e mandei-lhe:
- Deus, se é que existe, tem lá tempo para se preocupar comigo!
E fui-me afastando deixando a senhora a desagravar Deus da minha heresia.
- Preocupa, preocupa!
Vá lá uma pessoa ouvir as dicas do Veloso! Escondi as unhas vermelhas nos bolsos, antes que a preocupação divina me livrasse do verniz reluzente que me tinha custado uns cêntimos nos chineses.