sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

À Socapa


Magritte




Aquele canto é um lugar íntimo de beijos, abraços, passeatas de cãozinho, coisas que se querem com recato. Um sítio de socapa. É um lugar para dois. Mas não é seguro. É certo que fica nas traseiras de uma resma de prédios, que fica encostado a quintais e muros, mas tem janelas e varandas por cima, com lençóis pendurados a secar.
É verdade que os dois chegaram no intervalo do almoço. Ninguém se ia pôr à janela nessa hora. Um deles poisou a mochila, sacou de um maço de tabaco, abriu-o, serviram-se de uns cigarros estreitos, e desataram a puxar o fumo.
Eu almocei mais cedo, nesse dia, e estendia a roupa às horas menos frias do Inverno.
Eles olhavam de soslaio. Eu via-os de cima. Jovens. Muito jovens, livres, longe, metidos na sua vida, sem fazerem mal a ninguém. O tempo era de certeza escasso, porque eles despacharam os cigarros num instante. Devia estar quase a tocar para a aula, pensei. Eles puxaram a última fumaça, espezinharam as beatas, que se embrenharam na terra. A seguir, chuparam rebuçados, olharam em volta, endireitaram as mochilas, olharam para os estendais e foram-se embora.

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