
Anda uma formiga atarefada que nem eu a bisbilhotar migalhas nos torrõezinhos da terra para me precaver contra a míngua do Inverno, a contar as moedinhas pretas do porquinho e a congeminar em que banco as hei-de aferrolhar, a persignar-me antes de qualquer momento de aflição, não vá Nosso Senhor esquecer-se de mim, e salta-me a voz roqueira, jazzística, dragona do Veloso, a rir-se que nem um perdido deste meu frenesim anti-crise.
Pára de chorar
E dizer que nunca mais vais ser feliz
Não há ninguém a conspirar
Para fazer destinos
Negros de raiz
Pára de chorar
Não ligues a quem diz
Que há nos astros o poder
De marcar alguém
Só por prazer
Por isso pára de chorar
Carrega no batom
Abusa do verniz
Põe os pontos nos Is
Nem Deus tem o dom
De escolher quem vai ser feliz
Parei. Ele mandava: Pára de chorar. Até aí, menos mal. Cada um chora conforme lhe dá na real gana. Eu cá choro por todos os poros que é uma maneira de dizer que me mato a trabalhar. A minha lufa-lufa é mesmo uma forma de carpir. Parece que a canção é de alterne. Oh, oh, nessa não caio eu. Nunca me deu para alternices. Não me puxa, pronto. Se for só usar verniz, tudo bem. E foi o que fiz. Deixei trapos e pratos e fui pintar as unhas. Aperaltei-me e fui até ao café ler o jornal.
Na rua, a chuva caía gélida. Dois ou três estudantes corriam para a escola. Encapucei-me e ia a virar a esquina, quando duas senhoras sorridentes e prestáveis me interromperam:
- Temos aqui uma lembrança para si! É de graça!
-??? (Hum? O Pai Natal disfarçado de vendedoras de graças?)
- Escolha entre estas três pagelas, por favor!
Quase me comoveu a generosidade das senhoras e escolhi uma que se intitulava: “O sofrimento humano vai acabar!” Sempre queria saber qual era a receita.
- Ah, esse é muito bonito. Acredita que o sofrimento vai acabar?
- Não!
- Mas olhe que vai! Deus….
Lembrei-me do Veloso e mandei-lhe:
- Deus, se é que existe, tem lá tempo para se preocupar comigo!
E fui-me afastando deixando a senhora a desagravar Deus da minha heresia.
- Preocupa, preocupa!
Vá lá uma pessoa ouvir as dicas do Veloso! Escondi as unhas vermelhas nos bolsos, antes que a preocupação divina me livrasse do verniz reluzente que me tinha custado uns cêntimos nos chineses.

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