segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Super high tech

pablo picasso Se ele curte o computador?
Ah, claro! Ele gruda-se ao ecrã. Ele surfa na net, ele linka-se, ele entra nas salas de chat, ele joga, ele vive com o seu pc.
Virtual, o seu mundo?
Virtual, o tanas! Ali, encontra-se com os seus pals, abate os seus foes. Os insiders e, se quiser, os outsiders.
Ele não existe?
Treta! Isso é treta! É só instalar-se no YouTube e o mundo é dele!
Insucesso escolar?
E o que é o sucesso? É a merda de teorias que injectam nas escolas? E o que ele aprende na net? Ele domina, pá, ele é um super high tech!

Ainda lhe restam umas horas de sono. O medo é aí que se esconde!
É aí que entra o mundo real.

domingo, 28 de setembro de 2008

Toda a verdade - 2

Kandinski


Dava banho à alma uma vez por ano. Na desobriga. Chegava-me ao confessionário, decidida a confessar toda a verdade.

- Alguma vez pecaste contra o sétimo mandamento?

- Foi só um lápis!

- A quem?

- À padeira. Era o lápis do livrinho dos assentos.

- E contra o sexto mandamento?

- Ah, isso não, senhor padre!

- Nem em pensamento?

- Acho que não!

Eu não podia contar que, na missa, ao elevar da Hóstia, me extasiava sempre a olhar para o sacristãozinho que repenicava a campainha.

Aqui o senhor padre fazia de polígrafo e dizia:

- Estás a mentir!

Eu, que não e lá me safava com uma rodada de avemarias. Saía imaculada e com a promessa da eternidade, no lugar dos justos. Não é que a eternidade justa me desse uma alegria por aí além. Tinha a eternidade da vida pela frente. A outra logo se veria.Cá para mim, devo ficar eternamente a esfregar a alma no pulibã dos justos.

Faltou-me escancarar a última gaveta.

Toda a verdade - 1

Gustav Klimt - Naked

Cátia pensou. Pensou. Pensou. E decidiu-se. O dinheiro era urgente. Para ontem. O seu sonho era o lucro. Rápido. Sonhava vender este mundo e o outro. Há quem consiga colorir a rotina de vermelho. Ela não.
Mas só se faz dinheiro com dinheiro, ela sabia.
Foi à televisão. Vendeu a alma por cem mil euros. Quiseram comprar-lha por duzentos e cinquenta mil. Tinha de escancarar todas as gavetas da alma. Ela deixou uma selada. A mais valiosa.

sábado, 27 de setembro de 2008

De volta

Paul Klee


Não sei se é feito de angústia ou de medo este novelo que me consome antes do retorno. Esquisito este formigueiro. É o tempo da despedida. O tempo entre entre o colo e o salto. Uma espécie de limbo dos nascituros.
Hoje apetece-me voltar a casa. Como a amirgã ao sol de Outono. Da minha janela, as mesmas árvores. O mesmo casario com arraiais de antenas. O mesmo caixote a ensombrar-me as vistas. O mesmo corrupio de meninos e adolescentes. As mesmas mochilas empertigadas de saber. Os mesmos debates antes da abertura. Os Magalhães do governo a abrirem o mundo aos meninos e aos velhos. A oposição sempre que não. A mesma pompa. O mesmo contragosto. Antes isso.
Ainda falta contar os meninos envenenados por leite de mentira na China. Ainda falta reconhecer as vítimas de um idólatra de terror, na Finlândia. Ainda falta andar por aí. Sem o olho sinistro do crime desbragado. Mas esse foi sempre um tempo de utopia.
A minha vizinha embandeira ao sol uma camisa do seu homem. Meninos patinam em frente à escola. Riem. Pardais à solta, diz o fado. Um espantalho espanta os pardais. Um dia destes os pardais passam a fronteira com chumbo para os espantalhos. É isso. Este mundo está cheio de espantalhos. E de meninos.