segunda-feira, 26 de maio de 2008

Toques do Caramulo e Galandum Galundaina


Todas as serras são terra. Mas há umas mais terra que outras. Umas mais guerra. Outras mais mulher.
Em Estarreja, na noite de 24 de Maio, fundiram-se Miranda e o Caramulo.
Do terrunho nordestino, os pandeiros, a pandeireta, as gaitas de foles, as frautas, os chocalhos, a çanfona, as vozes, com ganas de espadeirar e guerrear o nevoeiro merencório que nos vai cobrindo as vistas. No alfarrábio das letras, rimances, risadas e caçoadas do mau passo de mulheres ou de frailes cornutos. O mirandês a saber-nos a pingue de alheira qundo fai frio invernoso e a auga fresca do cântaro, no pino do Verão. O Douro terroso a sorver a terra.
Do Caramulo, o acordeão, a braguesa, a rabeca, o bandolim, a flauta, a guitarra, a percussão, o contrabaixo, a lua namoradeira, a voz sem capucha, a subir em preces ao divino e a descer socalcos e cascatas, em trovas amaciadas ou em despiques garridos. Tudo a ressumar verde.
Nas duas serras, a oliveira, o linho, os serões, a cantiga a aliviar as cruzes do trabalho.
Em Estarreja, as duas serras. As gaitas e as cantigas dos Toques do Caramulo e dos Galandum Galundaina num Chin, glin, din, à sombra da oliveira, a uma voz que fez mover montanhas e o público que não queria arredar pé.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O Gesto



Esta noite, andarilhei pelo sonho à procura de um só gesto, um ícone que me retratasse, que me grandiloquecesse. Um beijo-verão, o corpo-ânsia, o corpo-ninho, o braço-búzio, a mão-pente, a mão-lume, a mão-palavra, a mão-lençol, os olhos-faca. Não. Todos são eu.

Antecedi-me. Fui vasculhar na vida da minha mãe. Ela, sim. Aqui. Num 22 de Maio. Dois braços. Um para acolher a filha que nascia. Outro para fechar os olhos de um filho que morria. Dois braços a chamar. Levou a vida toda a acabar esse retrato.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O elefante e o passaroco

artstreamstudios.com


É profe de Matemática. Diz-se que vive com uma calculadora, numa casa chegada ao infinito. Grandalhão e rotundo, porte de elefante e de avestruz, asa de camurça já coçada, paira por cima de nós. Ri muito. O riso e a música são o discurso dos números, diz ele. Um poeta.
Encontrei-o um dia destes na avenida. Orelha murcha. Sorriso envelhecido. Um elefantinho de Vinicius.
Onde vais, elefantinho,
Correndo pelo caminho
Assim tão desconsolado?
(…)
— Estou com um medo danado
Encontrei um passarinho!

- Então, estás doente? A reforma ainda não veio? Não és titular? És director de turma?
E já ia eu a meio da ladainha de consolação, aguenta, não tens nada ar de sessenta e cinco, cada vez estás mais prás curvas, tu hás-de ser titular, não quebrantes, não te debilites, reza amen, vai a Lurdes, ele contou:
- Foi um daqueles passarocos. Aquele ali, de mochila à bandalheira, iol, ganguex a arrastar o chão. Estás a ver? Quando eu lhes dizia que o número era omnipresente, que talvez até Deus fosse um número, ele mandou a boca que um granda número era eu, e que omni, omni mesmo, meu, era o mani do pai dele.

sábado, 10 de maio de 2008

A Naifa


Despudoradamente novo. E, no entanto, nosso. Aquele fado, trajado de som electrónico, bateria, baixo, guitarra portuguesa, escrito e cantado por mulher. Com paixão, ódio, riso afiado, vestidos cansados, ferro de engomar fora do descanso, noites mal dormidas, andanças de marinheiro, com o meu, o teu, o nosso dia-a-dia depressivo, em palco. Com uma ousada, “inocente inclinação para o mal”, que faz esgotar noites no Teatro-Circo, em Braga, de há muito cidade paradoxal, e que, ontem, vestiu de gente nova a sala do S. Pedro, em Águeda.
Um mal com um poder sedutor de nos provocar. E de nos espelhar

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Como se diz “Festa da Mãe” em ucraniano?

foto Lea Lopez - Coro infantil d'Orfeu

Cefas. 16h, 1 de Maio de 2008. Festa da mãe da comunidade ucraniana em Águeda.
Uma imagem de Maria, José e o Menino, ocupa o centro do cenário. Girassóis entremeiam-se em vimes, simulando a casa ucraniana. Duas bandeiras. A portuguesa, à direita. A ucraniana, à esquerda. A mãe, a figura da tarde. Nadiya Umanska, a Presidente, da subdelegação de Águeda da Associação dos Ucranianos em Portugal, a personificá-la.
Crianças de trajes coloridos ocupam as primeiras filas da sala. Grinaldas de flores coroam os cabelos loiros das meninas. São os filhos mais novos da Ucrânia, ali para cantar, dançar, fazer teatro e dizer poesia. Os meninos do coro infantil da d’Orfeu, novinhos a estrear, os nervos à flor da voz, sentam-se, disciplinados, e vão olhando os pais, que lhe acenam sorrisos de confiança. Na assistência, mães, pais, outros familiares, amigos. Ucranianos, bastantes. Portugueses, poucos.
Nadia conduz a tarde, por onde passam artistas de palmo e meio, gente em crescendo e gente grande, a pintar o Cefas com as cores, a cultura e a saudade da Ucrânia. Convidados de Lisboa e de Castelo Branco trazem dança, poemas, testemunhos de amor ao seu país e dizem saudade em ucraniano. Eu entendi-a em português. Natalyia Umanska, filha de Nadiya, cantou à capela. Pareceu-me prece. Não um sussurro, mas um quase grito. De certeza, um hino de amor a essa terra, de onde tiveram de partir.
E agora, chamam-nos. Os dorfeuzinhos. Com pianista(Ann Marie Simões), maestrina (Stanislava Pavlov), e capas de música. Como gente grande. Cantaram, enterneceram e fizeram cair lágrimas de mãe. Lágrimas redondas, de fim de tempo.
E depois os jovens da Cruz Vermelha, do projecto Asas Pró- Futuro. Os “Just Boys and Girls”. Os do hiphop. Os que dançam com tudo. Com o cabelo, os cotovelos, os dedos dos pés, as sobrancelhas, com todos os poros do corpo. Os que buscam “asas para o futuro”.
No fim, todos à volta de uma mesa. Como na Ucrânia, Como em Portugal. Como em quase todo o mundo. Fomos alguns. Um dia destes, havemos de ser mais. Havemos de ser tantos que havemos de cantar, sem paredes, um hino às mães de todas as cores e ensurdecer os deuses. Como os girassóis.