poema na montra da minha rua
A minha rua mora nas traseiras de uma artéria. Será uma veia de segunda. Na ventania, os estendais desfraldam lençóis e outras intimidades. Marquises agasalham varandins. Um choupo vai pingando os braços. Um pinheiro adulto é guardião de uma escola, onde mães e pais apressados deixam crianças com pestanas de sono mal abertas e educadores moldam o presente, curam medos, calam choros e sentam os semprimpé. Quase milagreiros!
A minha rua é culta. Tem Universidade, com quintal de laranjeiras, e em frente, uma resma de casas com janelame fechado e jardins desmazelados, à espera de outra sorte. São do estado ou coisa assim. A minha rua tem o saber grave da ciência, o sabor doce de um bar, computadores e outras tecnologias numa loja cobiçada por olho de larápio. Tem poemas numa loja de fotografia. As palavras são retratos de mimosas, Carnavais, pais e mães, noivos e meninos, brinquedos, procissões, praias, vindimas, castanheiros, Halloweens e Natais, sempre ao correr do calendário. Não me lembro de ter visto netos e avós. Coisas da memória!
Todo o dia se moureja, quer dizer, se trabalha que nem mouros. Bancos atendem clientes, fazem operações, gerem economias. A Segurança Social cuida de nos remediar o presente, que o futuro é trabalho de Bruxelas. Há sempre um vaivém de carros e parquímetros e passeios para carros e peões. Na minha rua, não há arrumadores.
Ao entardecer, recolhem-se as portadas da escolinha. Fecham-se os serviços. Medita a Universidade. Espevitam-se então as flores na florista, bebés passeiam os avós e melros e pardais chilreiam como os meninos da manhã. Ficam ainda o Sr. Antunes, o dono do supermercado que tem prendas para crianças e sonha com uma dúzia de netos, a mulher, a D. Angelina, que tem saudades de África e, na espera dos netos, vai adorando os sobrinhos e a Sandra, a empregada, mãe de dois meninos, que arruma e vende com o jeito da maternidade. O supermercado da minha rua devia ser uma creche. O Sr. Antunes fazia de avô e ensinava os meninos a desarrumar nas prateleiras as embalagens coloridas, a D. Angelina dava-lhes colo e a Sandra dava-lhes a papa e a sobremesa, com legumes e carne e fruta e aquele jeitinho de mãe que adivinha a vontade do filhote.
Hoje, dorme quase bem a minha rua, com segurança na noite e nas portadas das lojas. O quase é o medo do amanhã.