quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Extermínio


Na solidão, escutam e vêem sinais apocalípticos. Eles são os soldados do extermínio. Anjos alienados rumo aos infernos. Cumprem ordens para matar. Anunciam no YouTube.
Entram nas escolas e, em voo rasante, metralham os felizes, os que têm tudo, até a fatia do mundo que era deles. A morte é a última (a única) justiça! Gritam eles. Depois, eles. Os infelizes.
Noticiam a net, o YouTube, os jornais, as televisões.

Lídia


Lídia pedia ao sol licença para entrar. Ele que sim, mas que esperasse. Talvez mais para a tardinha. Ela sentava-se à sombra a tecer sonhos. Esquecia-se o sol, mas não fazia mal. Ela voltava. Colhia as palavras do orvalho. Corriam na face do poema as lágrimas da noite. Para ela bastava o sol dos outros.

Ontem, na minha rua



O ladrão gosta de perfumes.
Ontem o ladrão não se deitou. Espreitou o sono dos outros. Pegou na marreta. Espatifou a montra. Estendeu a mão. Com a mão varreu os perfumes para o saco. A guarda chegou e não apanhou a mão nas botijas de perfume. Ninguém pode prender uma mão alegadamente vassoura.
A minha rua era alegadamente segura.

No salão de chá


Iam lançar-se poemas no salão de chá do Alta-Vila. Podia ser na taverna, que a poesia não se envergonhava. Inaugurava-se um pólo de leitura. Na assistência, autarcas, jornais, intelectuais e a Associação de Surdos.
Mal os poemas se esgueiravam da mesa da poeta e convidados, iam ter com a menina que falava com as mãos e entravam feitos gestos no silêncio dos surdos. Como se manuseia Eugénio? Como se gesticula Alegre? E Rosário Pedreiras? E Fátima Negrão? Como é não sentir a vogal da rosa? A consoante da guerra? O vento da vida? Como é esbracejar num mar de silêncio? A menina sempre soube. “Sou filha de pais surdos. Aprendi a falar assim!”, contou ela ao jornalista.
A menina foi poema. Assim disse o silêncio de todos.



Arsélio Martins – Número Um

Ouvi-o há tempos discorrer sobre a importância da Matemática na vida. Começou por olhar as gravuras que ilustravam a parede do Salão Nobre da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro e falou sobre a mulher bairradina, sobre os números das suas vidas. Depressa saltou a barreira da matemática e nos fez crer que a Matemática é a Vida. Comecei a olhar as pessoas, os livros, a rua com os olhos dos números. E a morte? Será a ausência da matemática? E Deus? A infinitude da recta? E as palavras do poema? Não são um sem-número de mundos? O poeta que responda .
Arsélio Martins será tudo menos um lugar comum. Antes um nome onde cabem conjecturas. Um labirinto onde se perdem memórias de uma Escola.
Arsélio Martins., vencedor do Prémio Nacional de Professores. Professor da Escola José Estêvão de Aveiro.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Papo de anjo

O arcanjo - Botero
"Há trinta e cinco anos que eu e o meu marido nos damos como Deus e os anjos. Todos os dias, antes de ir para o meu trabalho, lhe escolho a roupinha, ele às vezes resmunga, mas não adianta. Á noite, tenho-lhe a comidinha pronta e ele é só sentar-se à mesa," confidenciou-me ela há uns dois anos, com ar de quem provou e gostou para toda a vida. Ela candidatava-se a um lugar de ajudante num lar de idosos, onde eu exercia funções directivas, e esperava que este testemunho íntimo acrescentasse valor ao seu perfil para o cargo.
Eu pensei na sorte que ainda têm alguns maridinhos, com tanto paparico a adocicar-lhes a vida, ainda por cima petiscos a saberem a papo de anjo. Assim não são obrigadinhos a crescer e ficam sempre de trelinha curta a babar-se de gozo, quando a dona manda.
"É certo, acrescentou, que, durante trinta anos, ele me fez sofrer muito, enfim coisas de homem, mas eu aguentei sofrida e surda, isso são águas passadas, já mal me lembro, e ele agora não sabe o que me há-de fazer."
Por isso agora não faz nada, é só adorá-la, imaginei.
Soube há dias que ele se lembrou da caçadeira que tinha por cima da lareira e a usou.
Vinha no jornal que o homicida está em prisão preventiva e já há quem future que a pena será atenuada pelo seu bom comportamento a vida toda.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

A minha rua

poema na montra da minha rua
A minha rua mora nas traseiras de uma artéria. Será uma veia de segunda. Na ventania, os estendais desfraldam lençóis e outras intimidades. Marquises agasalham varandins. Um choupo vai pingando os braços. Um pinheiro adulto é guardião de uma escola, onde mães e pais apressados deixam crianças com pestanas de sono mal abertas e educadores moldam o presente, curam medos, calam choros e sentam os semprimpé. Quase milagreiros!
A minha rua é culta. Tem Universidade, com quintal de laranjeiras, e em frente, uma resma de casas com janelame fechado e jardins desmazelados, à espera de outra sorte. São do estado ou coisa assim. A minha rua tem o saber grave da ciência, o sabor doce de um bar, computadores e outras tecnologias numa loja cobiçada por olho de larápio. Tem poemas numa loja de fotografia. As palavras são retratos de mimosas, Carnavais, pais e mães, noivos e meninos, brinquedos, procissões, praias, vindimas, castanheiros, Halloweens e Natais, sempre ao correr do calendário. Não me lembro de ter visto netos e avós. Coisas da memória!
Todo o dia se moureja, quer dizer, se trabalha que nem mouros. Bancos atendem clientes, fazem operações, gerem economias. A Segurança Social cuida de nos remediar o presente, que o futuro é trabalho de Bruxelas. Há sempre um vaivém de carros e parquímetros e passeios para carros e peões. Na minha rua, não há arrumadores.
Ao entardecer, recolhem-se as portadas da escolinha. Fecham-se os serviços. Medita a Universidade. Espevitam-se então as flores na florista, bebés passeiam os avós e melros e pardais chilreiam como os meninos da manhã. Ficam ainda o Sr. Antunes, o dono do supermercado que tem prendas para crianças e sonha com uma dúzia de netos, a mulher, a D. Angelina, que tem saudades de África e, na espera dos netos, vai adorando os sobrinhos e a Sandra, a empregada, mãe de dois meninos, que arruma e vende com o jeito da maternidade. O supermercado da minha rua devia ser uma creche. O Sr. Antunes fazia de avô e ensinava os meninos a desarrumar nas prateleiras as embalagens coloridas, a D. Angelina dava-lhes colo e a Sandra dava-lhes a papa e a sobremesa, com legumes e carne e fruta e aquele jeitinho de mãe que adivinha a vontade do filhote.
Hoje, dorme quase bem a minha rua, com segurança na noite e nas portadas das lojas. O quase é o medo do amanhã.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Só, a mulher no retrato

Amendoeira em flor - Van Gogh


O cemitério estava como os vivos queriam. Mais morto. As campas brilhavam que nem seixos. Flores de todas as cores fingiam-se de vivas. Velas vermelhas choravam lágrimas de cera. Lâmpadas bruxuleavam uma luz mortiça. Um prato de pechisbeque pedia moedas. Um padre benzia à pressa as sepulturas, rezava uma prece desbotada e recolhia as moedas. O vizinho da minha vizinha tinha mais velas que a minha. Os ais do sino vinham das entranhas da terra. Uma mulher chorava que lhe tinham roubado um candeeirinho.
Ao meu lado um vaso com terra e flores vivas. Mais nada. Mais ninguém. Só, a mulher no retrato. Talvez lhe digam as palavras em casa. Aí, onde ela continua.