Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Um papagaio conveniente



Dos quatro quem fala é o papagaio. Os outros três revendem. Nesta loja de conveniências, encontra-se quase tudo. Nas prateleiras, até bolinhos, hermeticamente engaiolados, definham em carteirinhas plásticas.
Entro, o papagaio pára a sua corridinha no poleiro, pisca-me o olho sedutor e:
- Olá!
Quando me preparo para responder, já ele,garboso e bem falante, saúda outro freguês:
- Olá!
Os assessores espreitam os sacos dos clientes alegadamente suspeitos. Espreitam até as nossas intenções, não vá um fanático como eu ser aliciado por um corta-unhas do Dragão. Ocasionalmente,olho no papagaio e no freguês, vão instruindo:
- Descida à direita! Subida à esquerda!
Subo, à procura de uma pilha em promoção, igual à que comprei há sete dias, passo pelo balcão, pago, devolvem-me o saco de carapauzinhos que entreguei à entrada, olho para o papagaio, que assobia para o lado,atropelo uma espanhola em vacaciones,e saio para apanhar sol, antes que o vendam na loja de conveniências.

Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Brancos costumes


Não, claro que não somos um país de racistas. Seremos corruptos, terceiromundistas, chicospertos,oportunistas, pedinchões, tudo menos racistas.
Num hospital português,uma parturiente portuguesa negra desentranha-se de dores. Uma enfermeira portuguesa caucasiana disciplina o processo:
- Abre as pernas! Mais! Mais!
A parturiente vê-se branca para abrir e vai-se esventrando mais e mais.
- Vá lá! Abre as pernas ou pensas que estás lá nas áfricas?
A parturiente, professora numa universidade portuguesa, puxa das raízes e liberta um menino que berra até a enfermeira ficar negra.

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Cabeças feitas


O meu pai era barbeiro. A barbearia Primor ficava na Praça e era um lugar masculino, onde, apenas em vésperas de procissões, as mães das anjinhas pediam ao meu pai que aparasse as franjas das figuras celestiais ou lhes cortasse os cabelos à panache e, mais tarde, à garçone.
Confesso que cheguei a desejar ser filha do pai da Filomena, que era funcionário da Câmara e, na roda das minhas amigas, era um senhor. Mais senhor ainda que o cabo Adérito, pai da minha amiga Fátima, e quase tão senhor como o pai da Eduardinha, que era chefe de Finanças. Mas o meu pai gostava de trabalhar com cabeças e deve ter-me legado o talento porque eu sou professora.
Há poucos dias, um amigo meu e companheiro de Direcção de uma instituição cultural de referência, substituiu-me numa reunião educativa, referindo o meu nome. O Presidente da Reunião, pessoa de reconhecido mérito, perguntou:
- E o senhor é doutor,professor ou ...
- Barbeiro.
- Ah,desculpe - engasgou-se o Presidente.!
O meu amigo desculpou a gafe com a elegância que o caracteriza.
Fiquei a pensar que vale a pena ter a cabeça de um barbeiro para saber ouvir, opinar e desbravar ideias feitas. Ah! E o charme!

Ainda me dura o sol na boca


Tenho, como quase toda a gente, duas maneiras de chegar aos outros: pelo caminho estreito do coração e pela autoestrada da mente. E quando digo outros, não penso apenas nos humanos.Nos outros incluo, por exemplo, o Tesi da d'Orfeu, o cão mais poeta que contabilista,ou não fosse ele artista,ou a buganvília no Abril da minha varanda, penso em instituições como os Bombeiros, a Cruz Vermelha, a d'Orfeu, que me perdoem as não mencionadas, e refiro-me às pessoas que me ocupam coração e mente. Os meus eleitos aconchegam-se de tal maneira em mim que nunca chegam a sair, por mais que milhas de vida nos separem.Basta uma palavra deles para me deixar o sangue aos pulos,a boca a rasgar-se de riso ou a testa a sulcar-se de regos. Ainda trásdantontem, me chegou uma dessas palavras ansiadas. Palavras verdes como a erva de S. Tomé, rectas como a linha do Equador, de sol como o que torra a Baía de Luanda. Tão jovens como a promessa de amanhã. Tão vermelhas como a chama deles. Dos meus eleitos.
Ainda me dura o sol na boca.

Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Nasceu!



Nasceu! Pensava eu. Em boa hora! Eram precisamente 13 horas e cinquenta minutos, após três longas horas de espera e outras tantas visitas ao estabelecimento. Outros nasceram antes dele. De várias cores, a enriquecer esta sociedade pluriétnica. O momento crucial foi de aleluias. É sempre assim. Quanto mais longos os preliminares, a ansiedade, os falsos “éagora”, “vem, vem”, maior, mais ditosa é a hora do zénite.
A sala estava cheia de ansiosos e ansiosas, que iam mastigando, entre dentes, a raiva da espera sentada, enquanto transeuntes se pavoneavam lá fora, num gozo pleno deste sol de Março. A conta-gotas, iam entrando requerentes. Funcionárias preenchiam papéis com dados pessoais dos mesmos, mediam-lhes a altura com uma rasoura, um aparelhómetro piscava-lhes o olho e fotografava-lhes os semblantes enfadados. De vez em quando a maquineta engasgava-se e indeferia as carantonhas. Os pacientes compunham outra momice e o raio xis registava outro esgar de papão. Depois rabiscava-se, direitinho, o nome, que a máquina polivalente se encarregava de retorcer.
Agora, por volta das 13 horas e 43 minutos de ontem, eu conferia, a pente fino, os meus dados pessoais, e a funcionária explicava, pacientemente, que ainda não era bem a hora. Que podia ter de esperar algum tempo, até ter a minha vida, inteirinha, nas minhas mãos.
Um dia destes, vou ter, bem juntinho a mim, aquele que há-de testemunhar a minha cidadania, o meu voluntariado, a minha loucura, e me há-de acompanhar em qualquer morada real ou inventada, na rua de qualquer país, em casa, mesmo até no amirgã. Até que a morte nos separe.
Nasça ele em boa hora, venha bem e perfeitinho, o meu remoçado BI, o meu ansiado cartão de cidadã.

Domingo, 22 de Março de 2009

Mão estendida



Que eu me lembre, os pedintes da Dona Antoninha apareciam mais no Outono e no Inverno. Acossados pelo frio e pela nudez das árvores, entregavam-se à santidade das senhoras que, além de zelarem pela compostura dos altares, rezavam rosários. A D. Antoninha recebia os pedintes antes das trindades. Quem chegasse antes esperava no Outeiro, que tempo dava-o Deus de graça. Chegada a hora, eles entravam, encolhiam-se nos primeiros degraus da escadaria, à espera. Ela chegava e, do alto da escadaria, comandava um rosário colectivo, que lhe havia de purgar qualquer pecadito venial e abreviar um tempinho no Purgatório. No fim, prodigalizava os mendigos com uns tostõezitos, que entornava nas boinas cossadas e sujas dos caminhos.
Anteontem, um senhor engravatado, nos seus cinquenta anos, pediu-me cinquenta cêntimos para um café. Estava junto à Segurança Social. Ainda me disse que recebia a pensão da reforma no dia seguinte. Passei adiante. Um café não é esmola que se dê.
Ontem, ia eu a conversar ao telemóvel, junto da Cruz Vermelha, o mesmo senhor engravatado e bem falante interrompeu-me e pediu-me umas moedas para completar a refeição.
Lembrei-me do meu país em Bruxelas.
Hoje, o fogo do Purgatório apagou-se, o Inferno mudou-se para cá e não há reza que nos livre dele.
Só a mão estendida dos pedintes permanece.

Sábado, 21 de Março de 2009

Poesia