sábado, 16 de janeiro de 2010

Redjeson Hausteen - Haiti


www.independent.ie/world-news/americas/miracl...

O menino tem dois anos. Passou três dias soterrado nos escombros da sua casa, enquanto os pais esgaravatavam as ruínas, para atender ao choro que, gradualmente, enfraquecia. Do lado de cá do pesadelo, as vozes dos pais mantinham-no vivo.
Ele sabia que a mãe tinha o colo à espera dele. Ele sabia que o pai tinha o poder de o roubar ao escuro, esse papão que enche de pesadelo todas as infâncias.
Mas não foi o pai ou a mãe que o salvaram. Ou quem sabe, talvez fosse o grito que estilhaçava muros. Como se um santo, um super-herói, um feiticeiro, um ser quase alado, tivesse ouvido a dor de quem arranca da terra o choro vivo do seu menino e o desentranhasse por magia.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Doggy


Henrique podia ter escolhido outros temas para a apresentação, a realizar no salão nobre dos Paços do Concelho, no final do curso de comunicação, há cerca de dois meses. Ainda hesitou. Os augúrios do presidente. As fases ocultas. O banquete dos banqueiros. A intifada no parlamento. A inocência da magistratura.
Mas não. Escolheu o Doggy. O seu pastor alemão. Autorização solicitada. O júri estranhou, analisou a questão, os prós e os contras de uma exposição de um canino aos olhares de uma elite de doutos racionais, mas acabou por conceder a respectiva licença.
Henrique falou durante trinta minutos das suas vivências com o Doggy, companheiro de tanto tempo. Das viagens ao estrangeiro, dos passeios matinais ao longo da praia, das horas na esplanada, das idas ao supermercado, até da companhia do Doggy na empresa que Henrique geria. Discursou sobre a inteligência, a fidelidade, a afectividade do seu cão de guarda. O Doggy, ao lado do púlpito, repartia a sua atenção pelo palestrante e pela assistência, que, por curiosidade e prudência, não ousava mexer-se. Senhoras sorriam de enlevo, uma limpou mesmo uma lágrima clandestina. Os homens assumiam uma postura alemã, como exigia o homenageado.
Quando o palestrante disse “Disse”e a ovação ia a meio, Doggy rosnou. Congelaram-se os aplausos.
- Doggy, vai buscar as flores. – pediu Henrique.
Doggy dirigiu-se lentamente para a porta e regressou com um ramo de flores, acondicionado entre os caninos, e entregou-o à presidente do júri que, emocionada, lhe passou a mãozinha pelo pêlo.
A assistência não regateou a ovação.
- Doggy, E o meu telemóvel? Vai buscá-lo.
E o Doggy trouxe o telemóvel que Henrique tinha deixado junto das flores.
Desta vez fui eu a primeira a levantar-me, para aplaudir o herói da tarde.

Vi-os ontem na esplanada da praia. O Doggy mal conseguia levantar-se.
- Tem as patas traseiras muito doentes. Não tem cura. Resta a injecção para lhe abreviar o fim. Como não consigo pôr esta hipótese, vou arranjar todos os meios, para lhe manter a vida até ao seu fim natural,- contou-me o Henrique.
E lá continuaram os dois pela vida fora, o Henrique a levantar o dorso do Doggy com uma correia, para lhe aliviar o sofrimento das pernas que se recusam a andar.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Aquele grandão!


( O sino da igreja acaba de dar a meia noite. A neve cai em farrapinhos e o vento assobia lá fora. A casa aquece-se ao calor da lareira. O menino, depois de ter espreitado a dança da neve, vai aconchegar-se na cama da avó. Ele tem medo da tempestade. E não há sono que chegue , quando por trás da porta da casa quentinha espreita o olho de uma tempestade de inverno.)
Menino: Vó, a tempestade entra cá dentro? Vó, a neve leva o Pedro?
Voz do Pai (vinda do quarto ao lado e ameaçando): São horas de dormir! Olha a tempestade!
Menino (angustiado): – Está aqui a avó! A avó não deixa vir a tempestade, pois não, vó?
Avó (aconchegando o menino): Não, meu amor!
Menino: Vó, agarra o Pedro, agarra bem. Vó, o Pai Natal pode viajar com neve? Ele pode trazer o meu carro de bombeiros? Pai Natal, não te esqueças. Pai Natal, olha a tempestade! Vó, tu só me dás livros! Porque não me dás um carro de bombeiros? Vó, agarra o Pê!
Avó (agarrando o neto): Sim, o Pai Natal viaja com neve porque tem um trenó. E os livros são amigos!
Menino: Mas a Inês disse que não e ela já anda na escola!
Avó: Mas tu aprendes muita coisa com os livros!
Menino: Mas um carro de bombeiros mata a tempestade. Eu vou lá ao céu, dou uma palmada na tempestade. (Hesitando). Não, dou um empurrão na tempestade e ela cai na terra. Vó, agarra o Pedro.
Avó: Eu estou aqui agarradinha ao meu Pedro, eu não tenho medo, o meu Pedro defende a avó.
Menino: Vó, De certeza que o Pai Natal traz o carro de bombeiros? Aquele grandão? Aquele que pode ir ao céu? Vó, o Pedro defende a avó, o avô, a mamã, o mano, todos. Vó, agarra o Pedro!
Avó: Amanhã, escrevemos a carta ao Pai Natal e, se te portares bem…
O menino adormeceu antes de ouvir o se da avó.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Contrastes

TAJ MAHAL
"E o Taj Mahal é, para além do que podem dizer as palavras, uma coisa deslumbrante, talvez a mais deslumbrante de todas as coisas."

"A Índia é um país onde reconhecidos malfeitores são eleitos para o parlamento nacional, e onde um homem que trata dos seus negócios do fundo de uma cela numa prisão pode receber apoio verbal de nada menos que a dirigente suprema do Partido do Congresso,(...)."
Salman Rushdie in PISAR O RISCO

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Aminetu Haidar

"Temos de voltar a imaginar a liberdade em cada geração, especialmente porque há sempre quem tenha medo dela". Arthur Miller

Não lhe sabia sequer o nome. Da sua luta, pouco me tinha dado conta. Raramente era notícia. Quase não existia.
E, de repente, na prisão do exílio ousa gritar a liberdade e transforma o seu país no paradigma dos humilhados. Faz de Lanzarote o centro de uma luta ghandiana. Usa a fome como a suprema arma contra a repressão. Lega aos filhos uma herança de luta.

A nós, devolve-nos a crença na humanidade.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Tetravô


Deve dar-se um nó na cabeça do menino. A mamã pergunta-lhe que prendas quer que o Pai Natal lhe traga. O papá quer um desenho com as prendas que ele quer que o velhinho traga. A avó insiste na cartinha para o Polo Norte, depois de, tristemente, ter desistido do menino Jesus que, agora já não corre o perigo de se sujar ou mesmo ferir na chaminé, porque só lhe resta estar quietinho no presépio aquecido por fonte de energia renovável. O avô não embarca nesta ilusão menineira e, portanto, não fala do assunto, não vá quebrar-se o encanto da mentirinha que não prejudica ninguém e enche de sonho a infância do pequenote.
- A verdade é que não prejudica ninguém, - insiste o avô.
À noite a avó lê histórias de Pai Natal que afirmam que o ancião viaja de trenó, puxado a renas, e distribui prendas por todos os meninos do planeta.
Ontem, numa visita a um centro comercial, o menino falou com o Pai Natal, entronizado num cadeirão dourado.
- Então portaste-te bem?, inquiriu o tetravôzinho de longas barbas brancas.
O menino hesitou, olhou para o fotógrafo e para a avó e disse:
- Portei!
Depois, o menino, esquecido da prevenção gripal,deu um passou bem ao Pai Natal, que lhe ofereceu um presente.
- Então disseste que te portaste bem ao Pai Natal? Tu mentiste ao Pai Natal?
- Oh, vó, tu também mentiste! Tu disseste que ele não dá presentes aos meninos que se portam mal e ele deu presentes a todos os meninos. A mim também! E outra coisa,vó! Este Pai Natal veio do Polo Norte? Onde estão as renas? E o que vi na rua? Onde deixou o trenó? No Polo Norte há muitos Pais Natais?
Esquecendo a mentira de que fui acusada, não arguida, acusada mesmo, fui-me enredando noutra. Que o verdadeiro, o único, só viajava na noite de 24 de Dezembro. Que estes eram amiguinhos dele, dos meninos e das pessoas que precisam de vender.
- Mas ele deu-me o presente, vó! Não vendeu!
Antes que ele me levasse a julgamento, puxei-lhe a mão e levei-o ao parque infantil, onde os meninos nadam numa piscina de bolas.

sábado, 12 de dezembro de 2009

A estantezinha




Espera, mãe, deixa-me escolher melhor o sítio em que te veja. Aqui, à volta do meu pai, a acomodar-lhe o lugar na mesa, a enredá-lo na teia da tua entrega, ou aqui a amassares os matrafões da Páscoa, ou aqui a limpares as lágrimas pelas dores da nossa menina, elas foram sempre as meninas, nunca te ouvi chamar-me menina, era sempre a filha, como se eu tivesse crescido mais depressa, ou aqui a leres um aerograma de Angola, outra vez o avental a servir-te de consolo, ou aqui, no banquinho de cada Consoada, a perguntar se estava tudo que o Natal pedia, estava tudo, mãe, só o pai nunca mais veio, estava tudo, mãe, menos os dias gloriosos da tua força.
Mas este sítio, mãe, onde te escolho, é aquele onde estás sempre. À janela dos meus dias. A ver-nos, a acenar-nos, como se nunca acabasse a despedida, que era a maneira de nos teres de volta a essa casa, onde nós continuamos a morar.
Hoje, fazes anos. Se eu pudesse dava-te de volta o presente de que mais gostei. Talvez faça anos que tu mo compraste, para que o Menino Jesus pudesse enfeitar-me o sapatinho. Aquela estante menina, com seis livros tão meninos como ela. Procurei-a, mãe. Encontrei-a na memória. Talvez tu a vejas. Se assim for, guarda-a. E volta a pô-la no meu sapatinho. Daqui a doze dias, Mãe.