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Seja bem vindo quem vier por bem

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Pintei o sol de verde!

Michael O'Toole - pintor canadiano


- Vó, a pofessora pôs-me de castigo.
- Ahn?
- E os meus amigos riram-se todos de mim.
- E porquê?
- Pintei o sol de verde, vó! A pofessora disse que tudo o que está no céu se pinta de amarelo.
- Pois, meu amor, assim é no mundo real.
- E há outro, vó?
- Outro quê?
- Outro mundo, vó!
- Ah! Sim. Há outro mundo. O virtual. O das crianças. O dos artistas. o dos computadores. O dos velhos.
- E como se pinta o sol nesse mundo, vó?
- De todas as cores que se quiser.
- Vó, e quem pintou o arco-íris também está de castigo?
- Não, meu amor. Esse é o maior artista de todos.
- Vó, amanhã vou pintar o sol de arco-íris!


sábado, 4 de fevereiro de 2012

Garras

Ela, a um abraço de perdê-lo.
Ele, em pesadelo.  Abstinência. Outra vez em pesadelo.
A corrosão do corpo, do nome, do tempo.
Ela, em consumição de espera.  Entre o inferno e o primeiro canto da manhã.
Horrid Wings by John Jude Palencar
Entre o flagelo e o sopro magro da esperança.
Os dois, em escalada moribunda.
Ele dá-lhe beijos com promessas.
- Amanhã, deixo esta vida.
Enquanto não deixa, fuma-lhe o dinheiro magro.
Um filho. Talvez um filho o salve.
É aquela dor de o saber perdido e ela a querer retê-lo.
Ele promete, beijando o filho.
- Amanhã, deixo esta vida.
E deixou. Com uma overdose.

A nossa certeza

O passado é uma roda elástica e a nossa única certeza. Cabem lá todas as pessoas que conhecemos. Acendemos as luzes e elas falam. Às vezes, desordenadamente. Aquele amigo de há dez anos toca-me primeiro. Depois chega-se o de 92, depois um coro de 2005, depois um solitário de 70. Baralham-se. Todos me contam memórias. Todos me trazem afetos, pontes, folhas. Há alguns que permanecem na penumbra. 
leonid afremov 
Ontem, 4 de Fevereiro,  na Marques de Castilho de Águeda, a minha escola, colegas e  ex-alunos de  diferentes gerações, uns mais mediáticos e outros mais discretos, falaram da escola de ontem e da escola do futuro, dos seus percursos da escola para o mundo, de nós, professores, de colegas, de turmas inteiras, de uma escola que os marcou indelevelmente.  Seguiu-se o debate com a assistência, onde professores e ex-alunos ora se reviam, ora se comoviam, ora riam. Despregadas as bandeiras.
Nós vimo-nos ao espelho. Com menos vinte, trinta anos. Eles trouxeram memórias de aulas espantosas, criativas, irreverentes algumas, sem telemóveis, nem computadores, nem quadros interativos. Eles que estão no cerne das novas tecnologias. 
Um Juiz Desembargador recordou a BBC que ouvíamos nas aulas de inglês. Trazia discurso escrito, mas esqueceu-o e deixou falar a emoção. Assim fizeram outros dos ilustres convidados da Escola. Todos acenderam memórias. Todos aquecemos aquele fim de tarde de frio polar. Foi um calor feito de orgulho e coração.
Não estiveram outros de quem  a Escola também quer saber. De quem a Escola sente a falta. Alunos, funcionários, professores. A quem a Escola chama para um próximo testemunho. É que quando alguém diz que foi aluno, funcionário ou professor da Marques de Castilho convoca, de imediato, 85 anos de existência (ainda a festejar) de uma Escola com marca. Para que cada vez seja mais alto o coro de parabéns!
Voltem. A Escola continua a ser vossa.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Essências


Ela soube do resultado no dia dos anos dele. Bom prenúncio! Preparou um jantar íntimo. Velas. Flores.  Astor Piazzolla. Lareira acesa.
Matteo Arfanotti
Perfume.
- Esta é a tua essência. É feita de ti.disse-lhe ele, sorvendo-a no primeiro beijo.
Ele serviu-lhe o vinho. Os dois brindaram.
- A nós os dois.
- A nós os três!
Ele engasgou-se.
- Estou grávida.
Ele teve um ataque de tosse. Finalmente, engoliu o espanto.
- Estou grávida! Soube esta manhã.
Ele vestiu o casaco. Só a pressa lhe ocorria.
O vazio entrava. O jantar esfriava.
Ele agarrou na solidão e levou-a.
- Vou tomar café.
Deixou atrás de si um ventre cheio e a essência dele.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Mal-empregada!

Tem vinte e oito anos e um filho de três. Licenciou-se em História em 2007 e trabalhou numa loja de lingerie, até há um mês. Como a crise está a obrigar as portuguesas a prescindir do luxo interior , as vendas diminuíram e ela foi dispensada. Começou a procurar trabalho. Lê jornais, consulta a net e desabafa com amigos tão desempregados como ela. Fala o francês e o inglês do secundário e de algum contacto com clientes estrangeiras. Leu  anúncios circunscritos à sua área de residência.

Erguer a cabeça acima do rebanho
é um risco
que alguns insolentes correm.
in http://vita-gotasdepoesia.blogspot.com
Docentes precisam-se.
Para dar explicações de Português, Francês, Inglês, Filosofia, História e Geografia até ao 12º ano. 6.50 euros/hora. 
Entrevista pessoal

E se se candidatasse?
Leu outro: 

Estabelecimento especializado em Gerontologia Social necessita diretor/a com formação superior.
Entrevista pessoal

E se se candidatasse?
Copiou as referências, deixou o filho na escolinha e depois de ter dado uma vista de olhos aos programas das disciplinas em causa, foi ao centro de explicações. O dinheiro era reduzido, mas ensinar era o seu sonho.
Apresentou-se e foi atendida pelo Director. Ele olhou-a, fez um ahn, ahn e sorriu. Ela sentiu-se mais confiante. 
- Vamos agora testar os seus conhecimentos. 
Nas línguas, não teve problemas. As questões foram básicas. Na História, ainda se atreveu a corrigir um truque do Director. Na Geografia, confundiu-se nas questões do Mundo Policêntrico. Na Filosofia, baralhou-se com O Nascimento da Tragédia de Nietzsche. O Diretor sugeriu que deixasse o currículo e disse-lhe que lhe enviava uma resposta, dentro de uma semana.
De tarde, dirigiu-se  ao Centro de Gerontologia Social.
Recebeu-a o Administrador que acumulava o cargo com as funções de padre. A entrevista foi centrada em questões religiosas e, fundamentalmente, no papel da religião na aceitação da velhice e na exaltação do sofrimento. Ele salientou a polivalência do perfil do Diretor do Lar, que devia saber ouvir, aconselhar, formar os seniores nas novas tecnologias, exercitar memórias, promover convívios, passeios e outros eventos, organizar feiras de gerontologia, cooperar na gestão da instituição, angariar fundos e promover a imagem da instituição nos media. O vencimento era de 550 euros, portanto, acima dos 500 habituais.  O Administrador ainda a levou a conhecer os idosos que, momentaneamente,  a olharam e regressaram aos seus passados.
Apenas um, ainda no auge dos seus setenta, comentou, de olho lúbrico:
- Mal-empregada!
Ela sorriu e o Padre ignorou a garridice.
Como a lista de candidatos era extensa, ele comunicaria o resultado dentro de uma semana. Ela que deixasse o currículo, nunca se sabe, podia haver necessidade de uma eventual substituição. 
Ela saiu e foi buscar o filho. Aconchegou-o, brincou com ele, jantaram juntos, adormeceu-o e  noite dentro, foi, com toda a resiliência, procurar trabalho no computador.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Super - Borbolino!

Esta noite sonhei com um super herói. Tinha o o corpo de um grilo e as antenas de um grilo. Só o tamanho era majestático. Era de um super-grilo. A voz, claro, era diferente. Não tinha agudos nenhuns. Era grave e como todos os montes a ecoavam, ouvia-se em todo o planeta. A missão deste grilo não era adormecer a noite. Era lutar contra um arqui-inimigo - o escaravelhão - que tinha um exército de escaravelhões para eliminar o Bem.
Estranho, este sonho. Eu que ando envolvida num caso de amor entre o grilo Borbolino e a estrela Venusina. Um grilo que faz a ponte entre toda a criação - entre a terra, o céu e o mar. Onde um menino se reencontra com os outros seres criados. Onde a escola acolhe seres de todos os feitios. Uma história onde o canto se cruza com a dança e a poesia!

Felicity Wishes I by Emma Thomson



Super, super é o meu Borbolino!
Acho que vou deixar de ver os Gormitis, na televisão.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

o jornal diz que joão


o jornal diz que joão
que Doutor Anthonio  não!

não importa se apanhei
o presumível Doutor
com a boca na botija
e quem acredita em mim
eu que não tenho pilim
pra lidar com a justiça?

Bem me custa que o Doutor 
tenha levado a botija
que no país tropical
onde cumpre a inocência
ela até nem lhe faz falta. 
Ao pobre do João, sim
no inverno da prisão
no meio daquela malta 
bom jeito que lhe fazia.

Ontem levei-lhe o jornal
Para não dormir tão mal.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Como resolver a crise


Eu tenho uma amiga que tem um couval e um batatal
Ela tem uma amiga com palavras no nabal

Falamos de muita coisa
Dos homens que a gente tem
Dos filhos que a gente mima
Do eurito que se fina
Ela da chuva e do vento
Eu da vida, etecetera e tal
De assuntos da vagina
De  trapos e da receita
Da vida que corre mal

Ela limpa ao avental
Os amores de antigamente
Eu embrulho um poemeto  
Numa folha de jornal

Palavra puxa batata
Couve puxa pensamento
Resolvemos a contento
Uma troca surreal
Ela dá-me o sustento
Com verduras do quintal
E eu trato-lhe da alma 
Com frutos do palavral

Meio quilo de batatas
Por dez quilos de poemas
Até que nem fico mal
Que em crise financeira
Guardar palavra é asneira
O que importa é o batatal.





segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Um presente de todos os Natais

Para uma amiga

Uma dor de não o ter
chovia-lhe no peito
como a intermitência da manhã
um assomo de sol ao meio dia
deixava-lhe a saudade em pranto branco
A noite trazia-lhe um abraço algodoado em névoa
para o chover de novo em manhãs entontecidas

Ele deixou atrás de si aquele deslumbramento
Como um presente de todos os Natais