
Henrique podia ter escolhido outros temas para a apresentação, a realizar no salão nobre dos Paços do Concelho, no final do curso de comunicação, há cerca de dois meses. Ainda hesitou. Os augúrios do presidente. As fases ocultas. O banquete dos banqueiros. A intifada no parlamento. A inocência da magistratura.
Mas não. Escolheu o Doggy. O seu pastor alemão. Autorização solicitada. O júri estranhou, analisou a questão, os prós e os contras de uma exposição de um canino aos olhares de uma elite de doutos racionais, mas acabou por conceder a respectiva licença.
Henrique falou durante trinta minutos das suas vivências com o Doggy, companheiro de tanto tempo. Das viagens ao estrangeiro, dos passeios matinais ao longo da praia, das horas na esplanada, das idas ao supermercado, até da companhia do Doggy na empresa que Henrique geria. Discursou sobre a inteligência, a fidelidade, a afectividade do seu cão de guarda. O Doggy, ao lado do púlpito, repartia a sua atenção pelo palestrante e pela assistência, que, por curiosidade e prudência, não ousava mexer-se. Senhoras sorriam de enlevo, uma limpou mesmo uma lágrima clandestina. Os homens assumiam uma postura alemã, como exigia o homenageado.
Quando o palestrante disse “Disse”e a ovação ia a meio, Doggy rosnou. Congelaram-se os aplausos.
- Doggy, vai buscar as flores. – pediu Henrique.
Doggy dirigiu-se lentamente para a porta e regressou com um ramo de flores, acondicionado entre os caninos, e entregou-o à presidente do júri que, emocionada, lhe passou a mãozinha pelo pêlo.
A assistência não regateou a ovação.
- Doggy, E o meu telemóvel? Vai buscá-lo.
E o Doggy trouxe o telemóvel que Henrique tinha deixado junto das flores.
Desta vez fui eu a primeira a levantar-me, para aplaudir o herói da tarde.
Vi-os ontem na esplanada da praia. O Doggy mal conseguia levantar-se.
- Tem as patas traseiras muito doentes. Não tem cura. Resta a injecção para lhe abreviar o fim. Como não consigo pôr esta hipótese, vou arranjar todos os meios, para lhe manter a vida até ao seu fim natural,- contou-me o Henrique.
E lá continuaram os dois pela vida fora, o Henrique a levantar o dorso do Doggy com uma correia, para lhe aliviar o sofrimento das pernas que se recusam a andar.